Para Além do Diagnóstico: Reflexões sobre o Cuidado, os Vínculos e a Formação Médica no CAPS Sadi

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Meu nome é Lays Silva, sou estudante do Internato em Saúde Mental da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Alagoas. Neste relato, compartilho algumas das experiências e reflexões construídas durante minha passagem pelo CAPS Sadi, localizado no bairro de Bebedouro, em Maceió, Alagoas.


Minha experiência no CAPS foi especialmente significativa por ter sido meu primeiro contato mais próximo com o funcionamento de um serviço de atenção psicossocial. Ao longo das semanas, pude compreender, na prática, que o cuidado em saúde mental ultrapassa o atendimento médico e a prescrição de medicamentos. O usuário é acompanhado considerando suas diferentes dimensões, psicológica, familiar, social e comunitária, e cada profissional contribui, a partir de sua área de atuação, para a construção de um cuidado integral e contínuo.


Durante o estágio, acompanhei acolhimentos, consultas, grupos terapêuticos e visitas domiciliares, sendo os acolhimentos uma das experiências que mais me marcou. Ao acompanhar as psicólogas, tive contato com histórias de vida muito diferentes das que costumamos conhecer em outros cenários da formação médica. Muitas vezes, saía desses atendimentos reflexiva e emocionalmente sensibilizada, percebendo que não podemos julgar uma pessoa apenas por sua aparência, diagnóstico ou comportamento.


Essa experiência também transformou minha compreensão sobre o papel do médico. Mais do que identificar sintomas, estabelecer diagnósticos e indicar tratamentos, é necessário compreender a pessoa em sua singularidade, considerando sua história, relações, experiências e dificuldades. O acolhimento me ensinou que o cuidado começa pela escuta sem julgamentos e pela disposição de compreender não apenas o que o paciente tem, mas quem ele é.


Também acompanhei consultas e visitas domiciliares com a equipe. Uma característica que me chamou atenção foi a união da equipe em torno de um objetivo comum: oferecer aos usuários condições para que pudessem se cuidar, desenvolver autonomia e, sempre que possível, construir uma vida com maior qualidade e participação social. Pude observar uma postura empática tanto nos atendimentos realizados no CAPS quanto nas visitas às residências.
As visitas domiciliares me permitiram conhecer realidades que dificilmente seriam percebidas em uma consulta convencional e despertaram reflexões sobre os limites entre proteção e autonomia. Em alguns momentos, senti angústia diante das condições de vida e das estratégias adotadas pelas famílias para manter seus familiares seguros, percebendo que, embora algumas formas de cuidado tenham essa intenção, também podem restringir a liberdade e a participação social do indivíduo. Essa experiência me fez compreender que o cuidado em saúde mental deve ir além da proteção, buscando também promover autonomia, vínculos, qualidade de vida e participação na comunidade.
Outro aspecto que me marcou profundamente foram os grupos realizados no CAPS. Participei de um grupo de música no qual os usuários, além de conhecerem e trabalharem diferentes canções, eram convidados a refletir sobre questões relacionadas à própria vida. As músicas serviam como ponto de partida para conversar sobre sentimentos, sobre estar vivo, sobre aquilo que desejamos para nossa vida, sobre mágoas e sobre a necessidade de seguir em frente.
Participei também de um grupo de artesanato, no qual as usuárias realizavam atividades como crochê, tricô e filé, enquanto compartilhavam suas histórias e experiências. Um relato que me marcou foi o de uma usuária que sofria com o estigma de ser chamada de “doida” por frequentar o CAPS. Essa experiência me fez refletir sobre como o preconceito e a marginalização podem dificultar o cuidado em saúde mental, justamente quando essas pessoas estão buscando ajuda para enfrentar seus sofrimentos. Ao mesmo tempo, percebi que, para muitas usuárias, o CAPS representa não apenas um espaço de tratamento, mas também de convivência, pertencimento e construção de vínculos, demonstrando a importância de serviços que acolham o indivíduo para além de seu diagnóstico.
Foi justamente a importância dos vínculos que buscamos trabalhar em uma atividade que desenvolvi com os usuários, sob supervisão da assistente social Adriana, durante o grupo de sexta-feira à tarde. Como encerramento do mês, cujo tema estava relacionado à amizade, elaboramos a atividade denominada “Árvore da Amizade”. A proposta foi refletir sobre as características de uma boa amizade, a importância dos vínculos, das redes de apoio e dos limites nas relações. Os participantes registraram na árvore aquilo que consideravam essencial em uma amizade e, posteriormente, compartilharam suas escolhas e experiências com o grupo.


Algumas falas revelaram descrença na existência de amizades verdadeiras, o que nos permitiu refletir sobre a importância de construir relações de apoio e pertencimento. Percebi que, no contexto da saúde mental, a amizade e os vínculos não são questões superficiais, mas podem representar importantes fontes de suporte diante do sofrimento. O próprio grupo demonstrava isso, ao reunir pessoas diferentes que, mesmo se encontrando semanalmente, construíam relações e um sentimento de pertencimento.
Essa atividade me fez perceber que falar sobre amizade em um serviço de saúde mental não é algo superficial. Ter alguém com quem conversar, sentir-se pertencente a um grupo e saber que existe uma pessoa disponível para oferecer apoio podem fazer uma diferença enorme diante de momentos de sofrimento. Os vínculos não eliminam os problemas, mas podem tornar mais possível enfrentá-los.
No final da atividade, também propusemos uma reflexão sobre nós mesmos: se éramos, para outras pessoas, o tipo de amigo que esperávamos ter. Essa pergunta simples deslocou a discussão de uma perspectiva de apenas receber apoio para uma reflexão sobre aquilo que também oferecemos aos outros. Foi uma oportunidade de pensar que o cuidado e o vínculo são construídos de maneira compartilhada.
Outra situação vivenciada durante o estágio me levou a refletir sobre a complexidade da relação médico-paciente. Um atendimento me fez perceber que, mesmo quando o médico age com a intenção de ajudar, suas condutas podem ser interpretadas de maneira diferente pelo paciente, envolvendo expectativas, sentimentos e conflitos que nem sempre estão sob nosso controle. Essa experiência me fez questionar, por alguns momentos, os desafios da profissão médica, mas também compreender que ser médica não significa estar sempre certa ou ser sempre compreendida, e sim aprender a lidar com a complexidade das relações humanas, reconhecer nossos limites e buscar oferecer um cuidado ético, responsável e respeitoso.
Ao longo do estágio, um dos aspectos que mais me chamou atenção foi a integração da equipe do CAPS Sadi, na qual me senti muito acolhida durante toda a experiência. Pude perceber que médicos, psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, nutricionistas, educadores físicos e demais profissionais, apesar de possuírem diferentes perspectivas, trabalham em conjunto com o objetivo de oferecer um cuidado integral aos usuários. Essa convivência me mostrou que o trabalho multiprofissional vai além da atuação conjunta de diferentes áreas, envolvendo a troca de conhecimentos e olhares para compreender o indivíduo em suas diversas dimensões e construir um cuidado mais completo.
Saio do CAPS Sadi com uma compreensão diferente sobre a saúde mental e sobre o próprio papel médico. Mais do que conhecer o funcionamento de um serviço, tive a oportunidade de ouvir histórias, conhecer pessoas e repensar conceitos que carregava antes dessa experiência. Aprendi que o sofrimento psíquico não pode ser reduzido a um diagnóstico e que o cuidado pode acontecer de diversas formas, por meio de uma consulta, uma escuta, uma visita, uma atividade ou simplesmente pela construção de um espaço de pertencimento. Como futura médica, levo comigo o aprendizado de que, antes de qualquer diagnóstico, existe uma pessoa com sua própria história, desejos, medos e possibilidades, e que cuidar verdadeiramente significa enxergar o indivíduo para além daquilo que precisa ser tratado.