Relato de Vivência no CAPSi: Cuidado, Escuta e os Desafios da Prática em Saúde Mental Infantojuvenil

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Meu nome é Hevelyn Stheffany Brasil Mafra e sou estudante do 9º período da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
Hoje, compartilho este relato a partir da experiência vivenciada durante meu rodízio de Saúde Mental, no qual tive a oportunidade de estagiar no Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi) Dr. Luiz da Rocha Cerqueira, em Maceió.

Com a escala do rodízio de psiquiatria montada, tive a oportunidade de comparecer ao serviço apenas quatro vezes. As duas primeiras ocorreram em uma sexta-feira pela manhã, período em que, infelizmente, não obtive nenhuma vivência prática, já que o CAPSi não realiza atividades com alunos nesse turno, sejam elas de matriciamento ou reuniões internas. Algumas, de fato, são pouco pertinentes aos estudantes, mas outras, como o matriciamento, das quais poderíamos extrair bastante aprendizado, não pudemos acompanhar. Essa ausência revelou um problema estrutural do serviço: a impossibilidade de participação decorria da van de transporte estar lotada, sem outros meios de locomoção disponíveis, evidenciando como limitações logísticas podem comprometer a formação prática dos estudantes e, indiretamente, a própria dinâmica assistencial.

Nas outras duas ocasiões, no entanto, pude vivenciar experiências bastante significativas.

Em um dos dias, permaneci no serviço durante todo o período. Pela manhã, acompanhei um grupo de artesanato com crianças, ao qual compareceu apenas um adolescente. A ausência dos demais escancarou uma realidade central do cuidado infantojuvenil: a continuidade do tratamento depende, em grande parte, da atitude ativa dos responsáveis em levar as crianças ao serviço. Notei também como o encontro com adolescentes apresenta particularidades importantes: a personalidade mais assertiva e o desejo de autonomia típicos dessa fase tornam o vínculo terapêutico um desafio peculiar. Ainda assim, ficou evidente o valor desses momentos de artesanato como espaço em que o adulto pode orientar e conversar, mesmo que o jovem opte por não seguir integralmente as orientações; e chamou-me a atenção, sobretudo, a proposta de desconexão do universo virtual, no qual essas crianças e adolescentes estão frequentemente imersos, trazendo-os de volta ao momento presente.

À tarde, participei de um grupo voltado às mães que aguardavam seus filhos na recepção, também com atividade de artesanato — a confecção de garrafas decorativas. A alegria visível dessas mulheres me trouxe um insight importante: a necessidade de cuidar também de quem cuida. Frequentemente o olhar se volta exclusivamente para a criança, quando, na verdade, o contexto familiar em que ela está inserida é determinante para o próprio tratamento. Aquelas mães, imersas em rotinas estressantes de resolução de problemas e acompanhamento constante dos filhos  (e, nos raros momentos de ócio, também absorvidas pelo mundo virtual), encontraram no exercício artístico um instrumento de mindfulness, uma oportunidade de concentração e desconexão do ambiente ao redor, o que se mostrou extremamente benéfico e foi muito bem recebido por elas.

Meu último dia de estágio consistiu em uma ação com as crianças criada por mim e minha colega Marília utilizando imagens de emoções em forma de emojis (exemplo: 😍😔😭😡😂🥹). Reunidas em círculo, elas escolhiam a emoção que estavam sentindo naquele momento e explicavam o motivo; em seguida, realizamos uma dinâmica em que cada criança tentava identificar o sentimento do colega, que confirmava ou corrigia a percepção e justificava como de fato se sentia. Essa atividade revelou um contraste marcante: muitas daquelas crianças, que aparentavam felicidade ao correr, brincar e pular, guardavam tristezas profundas por diferentes motivos. Compreendi ali a importância de validar o sentimento infantil, algo que eu nunca havia parado para observar com esse cuidado. Muitas vezes essas crianças sentem e guardam suas emoções não por escolha, mas porque nenhum adulto se dispôs a conversar, estimular sua percepção sensível sobre o mundo e sobre seu próprio lugar nele. Nunca havia presenciado uma abordagem tão direta de exploração dos sentimentos infantis, e foi extraordinário poder conversar com elas, apresentar formas de lidar com o que sentiam e construir, ainda que em um único encontro, um espaço de escuta genuína.

Ao concluir meu rodízio no CAPSi, ficou evidente para mim que a multidisciplinaridade lá presente representa uma forma de compreender o sujeito em toda a sua complexidade, considerando seus aspectos emocionais, familiares e sociais. Apesar das limitações estruturais que reduziram minhas oportunidades de vivência, os momentos em que pude participar reafirmaram que humanizar o cuidado é reconhecer o outro — seja criança, adolescente ou cuidador — em sua integralidade, e construir, junto com ele, caminhos possíveis para lidar com aquilo que vive e sente.