Saúde Mental na Infância e Adolescência: Um Relato de Experiência no Centro de Atenção Psicossocial

Meu nome é Camila Rodrigues Coimbra, acadêmica do nono período do curso de Medicina da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Durante o estágio de Saúde mental no Internato Médico, fui contemplada a acompanhar o Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi) Dr. Luiz da Rocha Cerqueira e este é meu relato de experiência.
Estar no CAPSi foi uma experiência extremamente edificadora e transformadora no aprendizado sobre saúde mental, fora do pragmatismo ambulatorial, que por muito tempo foi a única opção imposta no manejo da saúde mental. Durante os dias acompanhei oficinas com crianças, adolescentes e com os responsáveis e consegui ver a importância do cuidado integral no tratamento, que visa a criança e o adolescente, junto de sua rede de apoio como participantes ativos do processo terapêutico.
O contato diário com a equipe multiprofissional permitiu compreender a importância da atuação interdisciplinar para a construção de estratégias de cuidado individualizadas, capazes de contemplar não apenas as necessidades clínicas dos usuários, mas também seus aspectos emocionais, familiares e sociais. Nesse cenário, o CAPSi me mostrou como um ambiente de acolhimento, escuta qualificada e valorização da singularidade de cada indivíduo.
Entre as experiências vivenciadas, destaco os grupos terapêuticos destinados aos familiares dos usuários, o “grupo mães”, que desempenham papel essencial no processo terapêutico. Esses encontros promoviam espaços de diálogo, troca de experiência, permitindo que os responsáveis compartilhassem desafios, dúvidas e estratégias relacionadas ao cuidado cotidiano de crianças e adolescentes em sofrimento psíquico. Tive a oportunidade de realizar uma sala de espera e abordar o tema da importância da rotina, sono e uso de telas. Juntamente com a equipe, conseguimos fazer uma roda de conversa, trocar experiências e compreender a realidade do outro, destacando a individualidade de cada um dos pacientes e seu contexto biopsicossocial, além de termos um momento para ajudar a esclarecer as dúvidas dos responsáveis e orientações gerais. Mais do que momentos de orientação, essas atividades ajudaram na criação de uma rede de apoio entre os próprios familiares. Ao reconhecerem que outras pessoas enfrentavam dificuldades semelhantes, muitos cuidadores demonstraram maior segurança, sentimento de pertencimento e redução do isolamento frequentemente associado ao cuidado de crianças com transtornos mentais. Não só essa roda de conversa, mas todas realizadas no serviço, fortalecem a autonomia das famílias, amplia sua participação nas decisões terapêuticas e contribui para uma compreensão mais consciente e participativa sobre o tratamento dos filhos.
Outro aspecto marcante observado durante o estágio foi a forma como o serviço promovia a cidadania por meio das ações educativas desenvolvidas com as famílias. Questões relacionadas à inclusão escolar, acesso aos serviços públicos, garantia de direitos e participação social eram constantemente discutidas, incentivando os familiares a exercerem seu papel como sujeitos de direitos e agentes ativos na defesa das necessidades de seus filhos.
Além das atividades voltadas aos familiares, acompanhei oficinas com as crianças e os adolescentes, tendo a oportunidade de participar de atividades de artesanato e práticas corporais. Tais atividades, trabalhavam o elo cooperativo, estímulo a concentração e principalmente para estimular competências cognitivas, emocionais e sociais indispensáveis ao processo abordagem psicossocial. Quero destacar a participação da primeira oficina de implementação do grupo Gestão Autônoma de Medicamentos (GAM) com os adolescentes do serviço. A atividade, que inicialmente era focada em explicar para eles a estrutura do GAM e mostrar o que seria desenvolvido durante os próximos encontros, acabou proporcionando logo de início, um espaço de escuta e diálogo, no qual os participantes puderam compartilhar suas experiências, dúvidas e percepções sobre o uso dos medicamentos. A oficina destacou, desde esse primeiro encontro, a importância de incentivar a autonomia dos adolescentes no cuidado com a própria saúde, promovendo maior compreensão sobre o tratamento, fortalecimento do protagonismo e participação ativa nas decisões relacionadas ao seu processo terapêutico.
Outro benefício amplamente observado foi o fortalecimento da autoestima e da autonomia. À medida que os usuários conseguiam superar desafios, realizar tarefas e perceber sua própria evolução durante as atividades, demonstravam maior confiança em suas capacidades e maior disposição para enfrentar novas situações. O reconhecimento oferecido pelos profissionais e pelos colegas reforçava sentimentos de competência, pertencimento e valorização pessoal, elementos fundamentais para o desenvolvimento emocional saudável.
Gostaria de prestigiar a equipe do CAPSi que mesmo diante dos desafios impostos pela limitada disponibilidade de recursos, por ser o único serviço ser referência para toda a população infantojuvenil de Maceió, uma cidade com 1 milhão de habitantes. Os profissionais demonstram compromisso, sensibilidade e dedicação na oferta de um cuidado humanizado e integral. A capacidade de acolher, estabelecer vínculos e construir estratégias terapêuticas individualizadas evidencia a excelência do trabalho realizado, reforçando a importância do fortalecimento e do investimento contínuo nos serviços de saúde mental, essenciais para garantir um atendimento digno e de qualidade às crianças, adolescentes e suas famílias.
A experiência no CAPSi Dr. Luiz da Rocha Cerqueira representou um marco significativo na minha formação médica, permitindo compreender, de maneira prática, os princípios que fundamentam a atenção psicossocial. O estágio evidenciou que o cuidado em saúde mental exige uma abordagem humanizada, interdisciplinar e centrada nas necessidades dos usuários e de suas famílias. Agradeço imensamente a equipe do CAPSi por todo o acolhimento e pelo trabalho fornecido, parabéns por lutarem pela saúde mental das crianças e dos adolescentes de Maceió, vocês fazem diferença na vida de muitos.
Por Sérgio Aragaki
Camila,
É muito bom saber que esse estágio, tão curtinho, pode proporcionar tantas contribuições à sua formação como futura médica.
A inclusão e o cuidado na saúde mental de crianças e de adolescentes implica também na inclusão e no cuidado às pessoas que delas cuidam, como você percebeu. E isso está muito para além de diagnósticos e tratamentos voltados aos sintomas, aos adoecimentos.
Agir interprofissionalmente e intersetorialmente, na determinação social, é o que propõe e tem sido feito na Atenção Psicossocial.
Seguimos na Luta Antimanicomial.
AbraSUS!