SERENATA DO CUIDADO: ENVELHECER COM MÚSICA E POESIA NA APS
A pandemia da Covid-19 nos deixou trancafiados em casa, especialmente a população idosa, considerada a mais vulnerável e com maiores riscos de morbimortalidade.
Foram momentos muitos difíceis naquele momento.
Diante daquele cenário, profissionais de saúde da Unidade de Saúde da Família de Ponta Negra em Natal/RN, pensaram numa forma de driblar a solidão e o isolamento social das pessoas idosas que moram no seu território, principalmente mulheres que participavam de grupos operativos da Unidade, tais como: “Encontros e Afetos”, “Amigos do Coração”, “PICS na Vila”, que semanalmente reuniam em momentos prazerosos. A música, a dança, o cuidado, os afetos estavam presentes as quartas-feiras em um recanto do posto de saúde. Era um momento de deixar tudo para trás e vivenciar o aconchego das mãos que curam, dos braços que acolhem.
Porém, com o advento da pandemia era preciso mais uma vez reinventar naquele momentos tão cruéis em que o mundo todo estava passando. O medo, a ansiedade, as perdas, as incertezas do amanhã, foram sentimentos presentes nas pessoas as quais acolhemos no cotidiano da nossa Unidade.
Assim, tentando minimizar aquele período tão obscuro, surge a “Serenata do Cuidado” em que profissionais de saúde vão às casas das pessoas idosas levando música, poesia, cordel, em forma de carinho, alento e generosidade, a magia do cuidado. Tudo começou com a chegada de uma aluna de Enfermagem que tem uma voz belíssima, Alyne Genuino, e o Agente de Saúde Fernando Augusto que tocava violão brilhantemente, e ao juntar os dois e outros profissionais que são poetas e que gostam de poesia, já estava formada a nossa Serenata do Cuidado. Ao longo de oito edições vivenciamos cenas incríveis: brilho no olhar, cantos de senhoras idosas relembrando os antigos seresteiros, alegria, lágrimas de felicidades, gratidão.
E parafraseando o grande Mestre Leonardo Boff, “o cuidado somente surge quando a
existência de alguém tem importância para mim”, cuidado significa desvelo, solicitude, zelo, atenção, bom trato. É esse é o desejo de cada profissional – as pessoas importam, devemos acolhê-las, cuida-las, estar perto, compartilhar cada instante da magia desse cuidado.
No ano seguinte, em 2023, com a chegada de outra enfermeiranda, Carolina, que cantava e tocava, recomeçamos as Serenata.
E após algum tempo, retomamos em outubro de 2025, com uma voluntária, Yara Angélica como também na intervenção dos alunos da disciplina POTI da UFRN.
Observa-se uma satisfação por parte das pessoas idosas e sua família, através do acolhimento que a equipe recebe, com sorrisos, participação de todos, no olhar, nos movimentos de pessoas idosas com demência, mostrando como a música pode ser apontada como uma tecnologia inovadora de cuidado se for organizada como uma atividade ao mesmo tempo sistemática e criativa, pois facilita a expressão de emoções. A música tem o poder de abrir portas que o tempo fechou. Ela resgata histórias, fortalece conexões e traz de volta pedaços da vida que foram esquecidos.
Por Emilia Alves de Sousa
Que iniciativa linda, Meine! Seu relato me fez lembrar das minhas próprias buscas por ações que ajudassem a atravessar e superar o período tão doloroso da pandemia, na perspectiva de ressignificar a vida e enfrentar esse grande desafio com mais saúde.
Parabéns pelo belíssimo relato!
AbraSUS