A arte de humanizar do ferreiro. Segunda parte.

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Segunda Parte:

Sabiamente os povos antigos, perambulavam de um reino ao outro para negociar, comercializar e trocar coisas e serviços, por isto muitos se conhecia entre si, embora fossem de tribos e reinados diferentes. Era comum, portanto, contrapartidas por serviços prestados, além de reconhecimento. Com isso, alguns, com um pouco mais de sorte, como no caso do ferreiro, obtinha certo prestígio naquela região por servir com maestria seus serviços laborais.

Estes ferreiros não serviam seus conhecimentos e suas armas apenas aos soldados do reino. Mas, quando quisto por suas obras, tinha a possibilidade de servir a reis, príncipes, rainhas e toda corte real.

Armas, armaduras, ornamentações, bijuterias, joias e toda sorte de material que o ferro podia dar, o ferreiro fazia.

Neste exemplo, pode-se dizer que, por um acaso, um ferreiro bem quisto pela corte, passava pelo infortúnio da dor e se encontrava entre os forasteiros e moribundos que na frente da cidadela angariava por tutela, cuidado ou guarida. E como outros doentes, também, recebeu o veredito do não.

O que deveria fazer? O que passava em sua cabeça naquele momento? Desistiria? Apelava uma vez mais?

Ele se pergunta: -Será que ficarei ao léu? O que farei?

Ele olhar ao redor, com dificuldade, se distancia das paredes para enxergar melhor as muralhas do reino… 

E se questiona: – Foi este mesmo o reino que ajudei a proteger com meu ofício?

– Foram estes soldados que ensinei a manusear as armas que hoje utilizam para me restringir?

Onde estão os aplausos? Mesmo as críticas, cadê?

O que devo fazer?

O fracasso é solitário.

 

Diante de Deus, encostado nas paredes frias, com sua dor saliente, com seu corpo cobrando as mazelas que causou a si próprio. Com o olhar para o horizonte… Procurando encontrar algo ou alguém que pudesse pedir misericórdia.

Ele se recorda de um anjo… Não metafísico, anjo daqueles terrestres. Alguém que um dia por ele nutriu um bom relacionamento. Alguém que este serviu e por seus serviços conquistou o coração.

Olhou para o lado e viram outros na mesma situação, muitos com crianças de colo, famílias seguindo seus rumos a procura de outros locais com hospedaria. Sem saber se conquistariam seus desejos.

Outros sentados… Olhando com esperança pra dentro, outros tentavam, em suplício, conquistar um dos guardas. Mas de nada valia… Velhos, crianças, homens e mulheres, todos, recebiam o não.

 

O ferreiro vê seu irmão, velho companheiro, aprendiz da vida e da arte de ferragens.

Irmão que via em seu mestre, orgulho. Pois, este caminhava junto.

Ouvia sempre o mestre ferreiro dizer coisas sobre a vida, sobre as pessoas, sobre os reinos e dos serviços que, o mestre, pelo mundo a fora percorria.

Aquele que outrora fora exemplo de vivacidade, coragem, astúcia e esperança, naquele instante estava como todos os outros, passando pelo fracasso.

O fracasso é solitário.

 

O irmão mais novo, aprendiz, que sempre esperava que o mais experiente resolvesse as muitas intempéries da vida. Nesta feita estava sem argumentos.

O irmão aprendiz: advertiu:

 -vamos tomar uma atitude, rumar a outro lugar. Vamos, vamos! Vamos que o dia se vai e aqui não podemos ficar.

No que retruca o mais velho, com voz embargada e olhos claros, cheios de lágrimas, mas, segurando​ para não demonstrar fracasso ao seu aprendiz:

-Como muitos eu servi. Como muitos eu também passei por estas bandas e fiz alegre, povos que não sorriam. Por vezes, também magoei e fui criticado por isso. Porém fui visto.

Hoje diante destas paredes que suportam o meu peso, que outrora foram por mim protegidas… Ninguém me vê.

Este reino e seu reinado sempre foram, por mim, estimados e proclamados. Porém, como iniciei minha fala, eu sou apenas um entre os muitos, dos muitos que aqui passaram.

Minhas obras nada modificam os ferrolhos que insistem em me limitar.

Tenho por este povoado e pela sua corte grande apreço.

O ferreiro abaixa sua cabeça disfarça a bolsa de lágrimas. Ergue-se e finaliza:

-Que saber? Prefiro ficar ao léu neste lugar a ter que cambalear noutro reino que nem sequer saberá onde me enterrar.

 

Dito isto, o aprendiz receitou: – não podemos ficar deste modo. E você também não.

Eu também tenho vivido e me contaram, nas andanças da vida que não podemos morrer por aquilo que não podemos alcançar ou mudar. Pois, assim são as coisas.

Pessoas vêm e vão e você não pode morrer por orgulho!

Fazemos o que está em nosso alcance, no demais, somos de fato mais um. Mas, este mais um pra mim tem significado.

E falando sobre este reinado, deve ter aí dentro alguém que você tocou o coração. Ou não tem?

 

O ferreiro, hipoteticamente aqui dramatizado, pensa e se recorda daquela alma que sempre lhe via como alguém, além do seu trabalho manual.

Ele se lembra daquela pessoa dá corte e confirma que existe sim uma última possibilidade e que iria tentar.

 

-Sim, meu jovem! Tentarei. O que me resta? Pedirei clemência.

 

Mesmo sabendo que romperia as regras. Mesmo sabendo que se fosse aceito, não poderia garantir ou requerer que os outros que lá fora esperavam pudessem ser beneficiários de tal alegria.

 

Por fim, ética e filosoficamente convencido, usou um dos corvos mensageiros, que cercavam aquelas matas. E escreveu:

– Olá estimada pessoa de alma alva. Sou o ferreiro, um dos poucos destas bandas, que outrora com singelas artes manuais servi a este reino. E por estes serviços fui bem quisto, pelos homens, pelos soldados, pelos guardiões, pelos comuns e pelos nobres, e, fundamentalmente, por sua compaixão, onde me fizera sentir um humano, por completo, cheios de dons que antes não reconhecia. Sim, este ferreiro, lhe tira o sossego para implorar por sua misericórdia.

Este pecador, vivente no mundo do mesmo Deus de vossa Senhoria, do mesmo Deus da sentinela, do Guardião -Mor do reino, lhe pede o que parece impossível. Angario poder, ao menos, ser visto por um de seus alquimistas ou praticantes do Galenismo para sanar a dor que rompeu com meu caminhar, nas estradas vim mancando, a planta do pé não se firma mais. E esta Cidadela que protegida pelo blasé do Mor ignora meu trajeto, minha dor e minha honra, nem ao menos, oferece-me guarida do sol ou tábua de descanso, ao relento me encontro e noutro local não pretendo ir, não por petulância, mas, pelo amor que sempre nutri e pela esperança no Deus dos reinantes. Cordialmente, O ferreiro. Reneé del Solar de la Noz.

Escreveu e a ave voou pra bem alto, transpassando os altos muros da fortaleza.

 

 

Continua para terceira parte. Final. http://www.redehumanizasus.net/96106-a-arte-de-humanizar-do-ferreiro-terceira-parte