Do medo ao horror

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Do medo ao horror.

A escalada da retórica sectária, arrogante e violenta de mandatários do poder executivo, está acrescentando horror ao contexto social do medo como expressão da subjetividade coletiva. É impossível dissociar o encadeamento entre discurso e ato. O modelo de gestão em Porto Alegre utiliza o terror para atordoar e produzir paralisia, enquanto o desmonte do Estado de proteção social avança.  Essa desordem no poder instituído vai se propagar como ondas de um terremoto para outros campos de poder em nossa sociedade.

A violência do crime organizado em suas guerras de facções, desde a muito tempo, estabelece as regras de um verdadeiro estado paralelo nas comunidades da periferia dos grandes centros urbanos.

Uma grande parte da população precisa se adequar a dois sistemas de ordem. Pois, pelo menos dois outros grupos, além do Estado, violam o monopólio do uso da força para dominar territórios.

Além disso, esses atores travam uma guerra interminável nas periferias urbanas. Embora os governantes não reconheçam oficialmente, há zonas de influência negociada entre os comandos de facções e as forças de segurança sobre o controle dos presídios, por exemplo.

Assim, não há perspectiva de coesão social onde o crime organizado disputa o controle do território. Nesses casos a imposição do medo é a regra para a manutenção da ordem. Desde a infância as pessoas precisam aprender a gramática desses conflitos e as regras de engajamento que permitem o mínimo de danos colaterais.

É impossível prestar um serviço público eficiente nesses territórios.

Na prática, os servidores públicos se vêem capturados no círculo vicioso de suturar cortes que jamais cicatrizam, porque as lâminas não cessam de voltar a ferir. Tudo acaba reduzindo a existência ao esforço sobreviver aos perigos. Um dia de cada vez. Todos os dias. indefinidamente…

A retórica dos tambores de guerra, da luta do bem contra o mal, dos baderneiros contra os trabalhadores e todo o tipo de reducionismo grosseiro, vindo da parte de autoridades, trazem a agudização da crise para o centro de um problema que é historicamente crônico.

Com a proliferação de combates pautados pela tortura, execuções e ameaças permanentes, o medo cede espaço ao horror. As pessoas ficam hiper vigilantes e o temor se dissolve na necessidade de estar pronto para atacar, retalhar ou fugir.

A disposição para agir e reagir violentamente não está relacionada apenas a vulnerabilidade e a injúria crônica. O principal determinante da ação violenta, em contextos coletivos, é a perspectiva de uma ameaça imediata a vida. Não são as pessoas pobres das periferias que podem levar nosso país ao caos de uma guerra civil aberta.

Há séculos o Estado promove ou tolera a ruptura da ordem ao se ausentar das comunidades pobres. Ainda assim, a maioria das pessoas vinha conseguindo não se engajar em lógicas de combate. Hoje isso já não é mais possível. A lógica da violência está capturando mulheres, crianças e idosos pela necessidade de lutar para sobreviver num contexto de guerra civil não declarada.

A generalização da violência corresponde ao estado generalizado de ameaça. É isso que vemos os governos liberais conservadores promovendo.

Como vimos no Espírito Santo, durante as greves da PM, foram os condôminos de classe média que se organizaram como milícias para se protegerem. Ou seja, estavam prontos para matar diante da ameaça imediata a vida e seus bens materiais.

Entretanto, a escalada do horror nos combates entre facções que disputam o controle de territórios tem levado populações inteiras, inclusive servidores públicos, que trabalham nessas comunidades, a uma sublimação do medo.

Como suas vidas estão ameaçadas por uma simples canetada dos governantes e da direção incerta e intermitente de uma bala perdida, o medo de torna um luxo.

Um luxo dispensável, quando o horror e o pesadelo habitam o dia a dia no lar e a rotina no local de trabalho.

Os trabalhadores da saúde, educação e assistência social tem seus destinos unidos ao destino das populações que atendem.

Mesmo com cadáveres esquartejados pelas ruas, os estampidos de fuzis e pistolas automáticas, resistem ao medo na tentativa de evitar o horror que já conseguem antever.

É por isso que não abandonam seus postos de trabalho. É por isso que resistem.

http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/aluno-de-8-anos-desenha-helicoptero-com-homem-armado-em-trabalho-de-escola-de-porto-alegre.ghtml