Precarização dos serviços públicos: quem sofre as consequências?

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Quem disse que a precarização das condições de trabalho pode se dar sem prejuízo à população que precisa dos serviços públicos?

Um relato aqui no Facebook provocou centenas de comentários de mães indignadas com a incapacidade das direções e professoras das escolas públicas. Elas esperavam que mesmo com o ataque sistemático às condições de trabalho na educação e a violência generalizada nas comunidades, nós pudéssemos garantir a segurança de seus filhos dentro das escolas.

A questão é de onde surge essa expectativa de que nós seríamos capazes de entregar o mesmo resultado, coerente com condições adequadas de trabalho, no caos promovido abertamente, nas três esfera de governo, em relação aos serviços públicos?

Em parte nós mesmos somos responsáveis. Temos a obrigação de alertar a sociedade de que o resultado de nenhum trabalho em condições precárias, com salários parcelados e sem infraestrutura adequada, é minimamente parecido com aquele realizado em condições apenas adequadas. Mas não somente nós, como categoria, somos responsáveis por esse tipo de ilusão. Nossa cultura histórica tem esse jeito de usar a resiliência para lidar com as questões imediatas da sobrevivência, como trabalho, moradia e alimentação e deixar o resto para o futuro.

Outro responsável direto são os meios de comunicação. Âncoras e articulistas como os da RBS, falam diariamente que os servidores públicos têm que cumprir com suas obrigações, ainda que o governo não seja capaz de prover as mínimas condições de trabalho.

Pensam que somos super heróis? Esses jornalistas teriam o mesmo desempenho se recebessem o salário de um professor?

Isso não apenas é imoral e antiético. É inaceitável. Do ponto de vista do realismo e do bom senso é uma situação suicida. As décadas em que temos tido que trabalhar em condições de penúria coincidem com o aumento da violência. Será por mera coincidência?

Temos que reconhecer que recuperar os dias de paralisação não equivale a um ano letivo normal. Sei disso como como aluno, desde o início dos anos 80 e como professor desde 2011. A própria greve já responde a perversa função pedagógica de ensinar aos alunos o valor que a sociedade dá a educação de suas crianças.

Uma coisa que todos sabemos é o nosso lugar na estrutura social. Isso é detalhadamente ensinado. Todos devem saber o seu lugar. E, é isso o que todos aprendemos.

Essa pedagogia violenta, exercida na própria estrutura do tecido social, nos trouxe a esse momento histórico. Estamos diante do limiar de uma crise de anomia onde os ressentimentos em relação a violência com que somos “colocados” em nosso lugar, estão explodindo em espetáculos de tortura, decapitações e esquartejamentos. O Estado não detém, há muito tempo, o monopólio do uso da força.

Nos comentários ao post daquela mãe indignada com a violência que sua filha sofreu na escola, podemos perceber o ressentimento explodindo em nossa direção. As pessoas parecem ter acreditado que seria possível haver segurança e cuidado em meio a um cenário de destruição do aparato de proteção social. Vemos nos comentários uma espécie de revolta. Todas se sentem frustradas em sua expectativa de que seria possível romper com o pacto do estado de bem-estar social, sem pagarem os custos decorrentes disso.

Quem prometeu que é possível destruir os serviços públicos e melhorar a qualidade do cuidado às populações mais necessitadas? Quem decidiu acreditar nessa falácia?

A situação descrita pela mãe está além das possibilidades dos trabalhadores em educação. Sabemos disso inclusive por incidentes semelhantes em escolas e universidades privadas e públicas. As mortes em decorrência dos trotes que sofrem os calouros no ensino superior são apenas um exemplo extremo da agressividade latente entre nossas crianças e jovens.

O fato é que a anomia é impossível de administrar. Ou resolvemos, ou sucumbimos. Por isso nenhum servidor público pode encostar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilo. Quando o tecido social está encharcado de ressentimento, discursos de ódio e sede de sangue, a ilusão deixa de ser um lenitivo.

Lendo os comentários é possível perceber o desamparo das mães tentando dar conta de sustentar e educar os filhos, a maioria com dupla jornada de trabalho ou sozinhas. A forma como quase todas que comentaram destilam ódio na direção de outras mulheres, as professoras, que elas vêem como pessoas bem sucedidas, é um sintoma grave.

Os comentários vão subindo o tom, anseiam por um linchamento, pelo alívio que se instaura quando se pode eleger um culpado. Pois, se parece que o problema já não tem solução, pelo menos é possível punir alguém. Acender uma fogueira e queimar algumas bruxas sempre foi uma alternativa para tornar a miséria suportável.

Não sei quando essa onda de ódio vai parar. Mas eu acredito que o fenômeno é o mesmo, tanto no que leva crianças a agirem com tanta crueldade, quanto com o que explode na violência das guerras de facções criminosas e o discurso de ódio do gestores públicos contra os servidores públicos.

Vivemos uma era de profundas intensidades, de perda de sentido e confusão. Esse é o começo desses surtos de ódio profundamente recalcado em nosso imaginário coletivo. Os professores são presas fáceis, atacados pelos alunos, suas famílias e pelos gestores. Afinal, é mais fácil descontar o ressentimento em nós do que naqueles que e tem armas para reprimir e o poder da caneta para impor e condenar.

Vem mais tempestade pela frente.