ENTREVISTA: José Ricardo Ayres fala sobre Intensivão da Integralidade

18 votos

O Lappis oferece a disciplina Intensivão da Integralidade, no segundo semestre letivo de 2013. O professor José Ricardo Ayres (USP), um dos docentes desta edição da disciplina, fala sobre as expectativas e a abordagem que ele irá propor.

A disciplina é um Tópico Especial na área de concentração Política, Planejamento e Administração em Saúde e nesta edição propõe o tema Áreas programáticas, direitos humanos e apoio institucional: contribuições teóricas conceituais-metodológicas para (re)pensar as práticas de integralidade em saúde.

As aulas serão realizadas entre os dias 16 e 20 de setembro, exceto sábado e domingo, das 9h às 17h, no Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/Uerj).

Confira a entrevista com José Ricardo Ayres.

BoletIN- Qual a sua expectativa, como docente do elenco da disciplina, para o Intensivão da Integralidade de 2013?
José Ricardo Ayres – A expectativa é sempre de muitas trocas, é muito importante podermos trocar experiências e leituras a partir de perspectivas teóricas diversas. Isso é sempre importante, mas quando se trata de integralidade é fundamental, dada a complexidade do tema.

BoletIN- O tema proposto para esta edição é “Áreas programáticas, direitos humanos e apoio institucional: contribuições teóricas conceituais-metodológicas para (re)pensar as práticas de integralidade em saúde”. Quais experiências de contextualização poderiam ser citadas atualmente no país?
José Ricardo Ayres – Eu não sou, certamente, a pessoa mais indicada para falar das experiências do país, como um todo, mas basta percorrer as diversas publicações do Lappis para vermos o quanto estão disseminadas em diversos centros, como Rio, Niterói, Recife, Belo Horizonte, São Paulo, em diversos locais das Regiões Norte e Sul uma série de experiências que exploram a interface entre cuidado, integralidade e direitos de formas muito criativas e transformadoras.

Se pensamos, por outro lado, em áreas programáticas específicas, como não lembrar da pioneira experiência da Atenção Integral à Saúde da Mulher, que a partir do enfoque de gênero configurou um primeiro grande impacto da entrada da perspectiva dos direitos para impulsionar a organização das práticas na direção da integralidade? Como não falar da grande revolução que foi e tem sido a reforma psiquiátrica, articulando de forma muito produtiva as idéias de saúde mental e cidadania? Como não consideramos o grande avanço na conquista da integralidade do cuidado alcançada pelo Programa Nacional de HIV/Aids? E temos outras experiências que têm progredido bastante em tempos mais recentes, como as discussões sobre raça e saúde, saúde do adolescente e do jovem, saúde e inclusão das pessoas com deficiência, por exemplo.

BoletIN- Recentemente, em entrevista ao nosso BoletIN, o sr disse que "em um certo sentido o cuidado não está distante da prática", mas que "essa presença é difusa, esparsa, pouco orgânica". Dentro desta perspectiva, em sua opinião, qual seria o caminho para a efetivação da integralidade, do cuidado e da efetivação do direito à saúde?
José Ricardo Ayres – Bem, sabemos que no campo da construção política da transformação de práticas sociais, como as práticas de saúde, apontar caminhos ou fórmulas não faz sentido. Seria um exercício inútil, se não mesmo perigoso (se o caminho vislumbrado se transforma em uma prescrição). Mas podemos, isto sim, olhar para as práticas, armados de reflexão e conhecimento, e propor ao debate público certas potencialidades que se abrem e, de outro lado, apontar riscos e obstáculos já experimentados.

As potencialidades que hoje percebemos me parecem se expressar em diversas frentes. Estamos em processo de repensar os currículos de formação de profissionais de saúde, e na minha Faculdade, por exemplo, com ativo interesse e participação de significativa parcela dos alunos, o que me parece uma oportunidade bem interessante! É um momento favorável para redirecionarmos a formação para a prática, para a realidade de nosso país, para a reconstrução das relações entre ciências biomédicas, ciências exatas e ciências humanas, para a construção de uma formação interprofissional com vistas à construção transdisciplinar de saberes e práticas na direção do Cuidado. Embora ainda engatinhando, percebemos também movimentos de maior compromisso político com a construção de respostas efetivas para enfrentar a séria crise da atenção à saúde no Brasil, então a questão de aumento de verbas para a saúde, de estímulo à atenção básica, no campo da formação e da melhoria da infraestrutura, e a alocação de médicos e outros profissionais em regiões carentes destes profissionais são muito bem vindas! Por outro lado, assustam alguns visíveis retrocessos, como os recuos conservadores das práticas de prevenção e defesa dos direitos das populações vulneráveis ao HIV, por exemplo, cedendo a pressões que impõem uma ingerência religiosa sobre decisões de cunho tecnocientífico e político – veja-se a proibição do chamado kit anti-homofobia, ou o veto à campanha de prevenção de HIV/Aids dirigidas às prostitutas.

Outra preocupação é a desarticulação das propostas de linhas de cuidado com a estruturação e dinâmica das redes de atenção básica, ou o esvaziamento dessas redes por políticas de saúde centradas em unidades de pronto-atendimento, sabidamente ineficazes e destrutivas para uma efetiva atenção integral à saúde. A insidiosa, mas contínua e corrosiva privatização do SUS, com o financiamento direto ou indireto (via isenções fiscais) da atenção à saúde é outra séria ameaça a nossa capacidade de cuidar. E acho também que só conseguiremos expandir potências e superar obstáculos rumo a um efetivo sucesso prático de nosso sistema de saúde. se conseguirmos progredir também no aprofundamento e expansão de uma cultura realmente democrática, capaz de ir achando caminhos de superação do individualismo e consumismo suicidas que nos impedem de ver que caminhos efetivamente emancipadores são aqueles que trilhamos juntos, e com tempo para "olhar a paisagem".

BoletIN- Para concluir, qual a abordagem que o sr pretende levar para o Intensivão?
José Ricardo Ayres – Pretendo seguir discutindo a integralidade com os queridos companheiros do IMS na perspectiva do Cuidado, como quadro conceitual reconstrutivo que parte da sólida tradição da Teoria do Processo de Trabalho em Saúde em diálogo com  influências filosóficas diversas de sua matriz marxista original, como a Hermenêutica Filosófica e a Teoria da Ação Comunicativa, sempre cotejando-o com a experiência prática derivada de nosso trabalho de assistência e pesquisa junto ao Centro de Saúde Escola Samuel Pessoa, o CS Escola do Butantã.

INFORMAÇÕES GERAIS:
Disciplina Intensivão da Integralidade
Tema:
Áreas programáticas, direitos humanos e apoio institucional: contribuições teóricas conceituais-metodológicas para (re)pensar as práticas de integralidade em saúde
Local: IMS/Uerj,  Rua São Francisco Xavier, 524, 7º andar, bloco D, Maracanã, Rio de Janeiro -RJ.
Contato: www.ims.uerj.br ou (21) 2334.0235 / 2334.0354 / 2334.0472 / 2334.0504