Moralidade e Justiça.

14 votos

balance-620x350.jpg

A nossa recorrente incapacidade para agir de acordo com a moral é sintoma de que a vida é maior que os sistemas racionais usados para tentar esgotar o sentido da existência. Toda linguagem é um fenômeno da existência. Emerge no interior desse misterioso fenômeno. E, por mais que aspire uma perspectiva completa, a linguagem está aprisionada nas vísceras do real. Pode expressá-la de incontáveis maneiras. Mas jamais de maneira absoluta, por que aí teria de estar fora, teria que dizer o que é existir sem existir.

Disso decorre o fato de que todo o sistema filosófico, toda a teologia e toda a moral, quando realmente bem formulados, nos colocam diante do mais profundo mistério. Sistemas totalizantes quando não forem meros abusos de linguagem, nos colocarão diante da mais completa incerteza. É somente no ato que a incerteza se converte em evento, em uma impressão que prescinde da crença e passa a habitar o reino dos fatos.

Mas nossas instituições, nossa civilização e a maioria de nossas culturas baseiam-se na ilusão, no consenso coletivo, mais ou menos consciente em torno da promessa de que a linguagem pode expressar a verdade sobre o mundo. E essa verdade fabulosa fundamenta a ética e a moral que orientam nossos passos nesse mundo. Vejamos os seguintes termos dessa frase de Nietsche:

“Quando você olha demais dentro de um abismo, o abismo olha dentro de você” 

Temos a noção da passagem do tempo, no “quando”; a referência a existência do outro, no “você”; que “olha demais” e vê com os olhos os conceitos da mente espelhando, em nossa mente uma versão duplicada, exata e indistinguível do mundo. Mas esse é um mundo onde existem “abismos”. E, principalmente, temos essa capacidade de tratar como um ente qualquer coisa que chegue a nossa percepção – o abismo é capaz de olhar para mim – o incognoscível dialoga comigo. Pensemos em qual verdade que pode emergir deste atento olhar para o mistério, na impressionante metáfora do abismo.

A filosofia, a teologia e a moralidade são expressões linguísticas de nosso desejo insaciável de esgotar a definição da diversidade de coisas existente no mundo. Gigantesca em pretensão e modesta em realização, nem mesmo a mais atenta espiada no abismo de um pequeno fenômeno, pode nos dar mais do que a certeza do mistério e da permanente interrogação que é o caráter fatal da consciência.