Assistência Religiosa: uma experiência de humanização na Maternidade Tsylla Balbino
A Maternidade Tsylla Balbino, unidade pública da rede estadual da Bahia, é um espaço onde diferentes histórias se encontram diariamente, atravessadas por experiências positivas relacionadas ao nascimento, mas também acolhendo experiências dolorosas de perdas, dor, expectativas e transformação.
Nesse cenário, o cuidado em saúde se apresenta como um campo complexo, que exige não apenas competência técnica, mas também sensibilidade para acolher as múltiplas dimensões que constituem os sujeitos — entre elas, a espiritualidade e a religiosidade.
A assistência religiosa, nesse contexto, não se configura como um elemento acessório, mas como um direito assegurado. No estado da Bahia, esse direito é regulamentado pela Portaria nº 880/2014 da Secretaria da Saúde do Estado, que garante a presença de representantes religiosos nas unidades hospitalares, desde que respeitada a vontade do paciente e as normas institucionais.
É a partir desse marco que se estrutura o Núcleo de Assistência Religiosa (NAR) na Maternidade, como estratégia de cuidado alinhada aos princípios da humanização e da integralidade no SUS. No cotidiano das enfermarias coletivas, um desafio se colocava: como garantir que a assistência religiosa acontecesse de forma respeitosa, preservando a privacidade das pacientes e, ao mesmo tempo, sensibilizando o ambiente para esse tipo de cuidado?
A resposta encontrada pela equipe foi a criação de um dispositivo simples, porém potente: um biombo sinalizador.
Utilizado durante os momentos de assistência religiosa, o biombo passou a cumprir uma dupla função. De um lado, garante o resguardo necessário para que o encontro entre paciente e representante religioso aconteça com dignidade, escuta e acolhimento. De outro, atua como um comunicador silencioso no espaço coletivo, sinalizando que ali ocorre um cuidado legítimo, que merece respeito.
Mais do que um recurso funcional, o biombo foi pensado como um elemento carregado de significado. Sua identidade visual foi construída a partir da representação de diferentes lideranças étnicas e religiosas, evocando a pluralidade que compõe o cenário brasileiro.
Ao se fazer presente no espaço da enfermaria, ele não apenas organiza o ambiente, mas também provoca reflexão: quem pode exercer sua fé no hospital? Quais crenças são reconhecidas? Quais ainda são silenciadas?
A introdução do biombo no cotidiano assistencial produziu efeitos que ultrapassam sua função inicial.
Observou-se maior respeito por parte de profissionais e usuários durante os momentos de assistência religiosa, além de uma ampliação da compreensão sobre a importância desse cuidado como parte integrante do processo terapêutico.
O dispositivo também passou a atuar como ferramenta de educação permanente, ao suscitar conversas sobre diversidade religiosa, equidade e enfrentamento ao racismo institucional — especialmente no que se refere às religiões de matriz africana, historicamente marginalizadas nos espaços institucionais.
Nesse sentido, o biombo contribui para a construção de uma ambiência mais acolhedora e culturalmente sensível, alinhada aos princípios da Política Nacional de Humanização.
A experiência reafirma que práticas simples, quando atravessadas por intencionalidade ética e compromisso com o cuidado, podem produzir transformações significativas no cotidiano dos serviços de saúde.
Também evidencia que garantir a assistência religiosa não se resume à autorização de acesso de representantes religiosos, mas implica criar condições concretas para que esse cuidado aconteça com respeito, dignidade e visibilidade.
Outro aprendizado importante diz respeito à necessidade de sustentar, no cotidiano institucional, espaços de diálogo sobre diversidade, crença e espiritualidade — reconhecendo essas dimensões como constitutivas da experiência humana.
Promover a assistência religiosa no SUS é afirmar um cuidado que reconhece o sujeito em sua totalidade.
A existência do NAR sustenta práticas que acolhem não apenas o corpo, mas também os sentidos, as crenças e as formas de existir.
Em tempos marcados por intolerâncias, iniciativas como essa nos convidam a reafirmar o hospital como um espaço de encontro, respeito e produção de uma cultura de paz. No cuidado em saúde, reconhecer o outro em sua inteireza, reconhecer e respeitar as diversidades não é um “diferencial” — é um compromisso ético cotidiano.