A “CAIXA DE MEMÓRIAS” COMO DISPOSITIVO DE CUIDADO NO LUTO PERINATAL

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CAIXA DE MEMÓRIAS COMO DISPOSITIVO DE CUIDADO NO LUTO PERINATAL: RELATO DE EXPERIÊNCIA NA MATERNIDADE TSYLLA BALBINO

O cuidado em saúde no contexto perinatal é frequentemente associado à promoção da vida, ao nascimento e à construção de vínculos iniciais. No entanto, perdas gestacionais, neonatais e perinatais fazem parte desse cenário e impõem desafios significativos às equipes de saúde, especialmente no que se refere ao reconhecimento e manejo do luto.

O luto perinatal caracteriza-se por especificidades relacionadas à brevidade da vida do recém-nascido e, muitas vezes, pela ausência de memórias socialmente reconhecidas, o que pode dificultar sua elaboração psíquica. Estudos apontam que a escassez de registros concretos contribui para processos de invisibilização da perda, impactando a construção de narrativas familiares sobre o bebê.

Nesse contexto, práticas que possibilitem a materialização de lembranças e a inscrição simbólica da existência do recém-nascido tornam-se fundamentais. A caixa de memórias emerge como uma estratégia de cuidado que articula elementos materiais e simbólicos, permitindo às famílias reconhecer, nomear e compartilhar sua experiência.

 

Tal prática dialoga com os princípios da Política Nacional de Humanização, especialmente no que se refere ao acolhimento, à clínica ampliada e ao protagonismo dos sujeitos, além de se inscrever no campo das tecnologias leves em saúde, ao privilegiar o encontro, o vínculo e a produção de sentido.

A construção da caixa de memórias é realizada por equipe multiprofissional, envolvendo principalmente profissionais da psicologia, serviço social e enfermagem, com participação da família. A prática é iniciada, sempre que possível, no momento do diagnóstico da perda, estendendo-se até o período de despedida.

O dispositivo consiste na organização de um conjunto de objetos que registram a existência do recém-nascido, podendo incluir: impressões das mãos e dos pés, pulseira de identificação, nome, fotografias (mediante consentimento), mensagens de condolências e outros elementos simbólicos definidos junto à família.

 

Além da entrega da caixa, são desenvolvidas ações complementares, como: oferta de momentos de despedida, organização de espaços mais reservados, comunicação empática e acompanhamento psicossocial contínuo. As intervenções são registradas em prontuário, garantindo a continuidade do cuidado.

A implementação da caixa de memórias tem produzido efeitos significativos tanto para as famílias quanto para a equipe de saúde. Para os familiares, observa-se que a possibilidade de acessar objetos concretos contribui para a construção de narrativas sobre o bebê, funcionando como evidência de sua existência e favorecendo a elaboração do luto. A materialidade dos registros permite que a experiência seja compartilhada com a rede de apoio, rompendo processos de silenciamento frequentemente associados ao luto perinatal.

Do ponto de vista da equipe, a prática promove deslocamentos nos modos de cuidar, ampliando a compreensão do processo saúde-doença para além da dimensão biológica. A construção compartilhada da caixa de memórias fortalece o vínculo entre profissionais e famílias e favorece a implicação ética diante da finitude.

Esses achados dialogam com a literatura, que destaca a importância de dispositivos que articulem memória, materialidade e narrativa no enfrentamento da perda perinatal, além de reafirmar a relevância das tecnologias leves na produção do cuidado em saúde.

A experiência relatada evidencia que a caixa de memórias se configura como um dispositivo potente na humanização do cuidado em situações de luto perinatal.

Ao possibilitar a inscrição simbólica da existência do recém-nascido e legitimar o vínculo familiar, essa prática contribui para a elaboração do luto e para a construção de experiências de cuidado mais sensíveis e integradas. Além disso, reafirma-se a importância de estratégias que sustentem o cuidado mesmo na ausência de possibilidades curativas, destacando o papel ético e relacional das equipes de saúde.

Investir em práticas como essas é reconhecer que, mesmo na brevidade da vida, há histórias que precisam ser cuidadas, lembradas e legitimadas no âmbito do SUS. Como costumamos dizer por aqui: “o amor não conhece despedidas, ele permanece”…