Meu nome é Murilo Lobo Cezarotti Filho, sou interno do curso de Medicina e venho compartilhar um relato de experiência vivido no estágio de Saúde Mental, no CAPS Casa Verde.
Escrever este relato é afirmar o quanto essa experiência foi enriquecedora e ímpar para minha formação médica. Cheguei ao CAPS carregando uma visão totalmente limitada da formação médica, que muitas vezes nos condiciona a olhar para a saúde mental apenas através das lentes estreitas do diagnóstico e da receita médica. Mas, bastou cruzar a porta de entrada — de um ambiente sem grades, de portas abertas e focado no acolhimento — para perceber que o verdadeiro cuidado começa exatamente onde o receituário termina.
Ter a oportunidade de trocar conversas e ouvir relatos de todas aquelas pessoas que compartilham o dia a dia do serviço mais do que comprovou de que isolar e “prender” pessoas não cura ninguém. A liberdade, o convívio e o afeto são agentes terapêuticos insubstituíveis.
Como estudante, essa experiência me deu muitos frutos. Tive a reafirmação que cuidar de alguém vai muito além de uma consulta no consultório e exige uma equipe onde todo mundo trabalha junto. A psicologia, a assistência social e a educação física têm o mesmo peso que a conduta médica, e tratar o outro de igual para igual faz toda a diferença na desmedicalização do sofrimento.
Foi exatamente nessa perspectiva de um cuidado mais humano e próximo que eu e minha colega Ana Carolina propusemos uma roda de conversa sobre a importância das atividades físicas. Nossa intenção era quebrar aquele velho mito de que “fazer exercício” significa pagar uma academia cara ou levantar peso. Discutimos abertamente como qualquer movimento conta: uma caminhada na praça, dançar na sala de casa ou até cuidar do quintal gera benefícios profundos para a cognição e o humor. Foi extremamente gratificante ver os pacientes percebendo que o próprio corpo é uma ferramenta poderosa e acessível, funcionando como um autêntico antidepressivo natural para a mente.
É inegável que o serviço público e a rede de atenção psicossocial enfrentam desafios diários. Falta material, a estrutura nem sempre é a ideal, mas a resiliência de quem está lá na linha de frente sustenta o sistema. Quando vemos os pacientes compartilharem seus sentimentos, angústias e desejos nas rodas de conversa e nos grupos, podemos observar pessoas querendo tomar as rédeas da própria vida, recusando o papel de meros receptores passivos de tratamento.
Levo do CAPS um aprendizado que ultrapassa os limites da sala de aula: o estágio me ensinou a ser um ser humano melhor para poder ser um médico melhor. O respeito absoluto à história de cada sujeito é essencial e a luta contra os manicômios não é apenas um marco histórico, é o que a gente deve praticar todos os dias, garantindo que as pessoas sejam tratadas com dignidade e, acima de tudo, em liberdade.
Por Sérgio Aragaki
Murilo,
Emocionante esse seu relato, que demonstra suas vivências, seus afetos, seus aprendizados.
A participação ativa das pessoas em seu próprio processo de cuidado é fundamental, como vc compartilha conosco. E contar com profissionais que têm a Luta Antimanicomial como norte torna a experiências de vidas muita mais amenas, contado com o apoio e a solidariedade para que as pessoas possam ter seus direitos de cidadania respeitados.
Seguimos na Luta!
AbraSUS!