Ansiedade na juventude: escuta, acolhimento e promoção de saúde mental no contexto escolar em Apuare

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Autores:

Docente: Ian Pereira Assunção

Discentes: Gabrielle Fialho e Jildeice Andrade

 

A ansiedade tem se tornado uma das principais demandas de saúde mental entre adolescentes e jovens brasileiros, especialmente em contextos marcados por vulnerabilidades sociais, pressões escolares, conflitos familiares, inseguranças quanto ao futuro e impactos das relações digitais. Durante uma experiência realizada no município de Apuarema, foi possível perceber como os jovens carregam, muitas vezes em silêncio, sofrimentos emocionais que atravessam o cotidiano escolar e interferem diretamente em suas relações, autoestima, aprendizagem e projeto de vida. A atividade desenvolvida possibilitou um espaço de diálogo, acolhimento e expressão emocional, reafirmando a importância da escuta qualificada como ferramenta de cuidado em saúde mental.

 

A adolescência e a juventude constituem fases marcadas por intensas transformações biológicas, psicológicas e sociais. Segundo Erikson (1976), trata-se de um período de construção identitária, no qual o sujeito busca reconhecimento, pertencimento e autonomia. Nesse processo, sentimentos de insegurança, medo e instabilidade podem emergir de maneira significativa. Entretanto, quando tais emoções se tornam persistentes, intensas e incapacitantes, podem configurar quadros de ansiedade que comprometem a qualidade de vida e o desenvolvimento saudável dos jovens.

 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os transtornos de ansiedade estão entre os problemas de saúde mental mais prevalentes na adolescência, afetando milhões de jovens em todo o mundo (WHO, 2023). No Brasil, os dados também revelam crescimento expressivo do sofrimento psíquico entre adolescentes, especialmente após o período pandêmico, que intensificou sentimentos de isolamento, medo, luto e incertezas (Brasil, 2022). Nesse cenário, torna-se indispensável fortalecer estratégias de promoção da saúde mental nos territórios, sobretudo em escolas e comunidades.

 

A experiência vivenciada em Apuarema-BA demonstrou que muitos adolescentes apresentam dificuldade para nomear aquilo que sentem. Em vários momentos da atividade, surgiram relatos relacionados à pressão para corresponder às expectativas familiares, medo do fracasso, excesso de cobranças, comparação social e sensação constante de insuficiência. Além disso, observou-se que muitos jovens associavam ansiedade apenas a “nervosismo” ou “fraqueza”, evidenciando a necessidade de ampliar ações educativas sobre saúde mental.

 

Segundo Paulo Freire (1996), o diálogo é elemento central para a construção de processos emancipatórios e humanizados. Nessa perspectiva, criar espaços de fala e escuta com adolescentes significa reconhecer os jovens como sujeitos ativos de suas experiências e promover práticas de cuidado fundamentadas no respeito, na empatia e na valorização da subjetividade. Durante a atividade, percebeu-se que, quando os estudantes encontravam um ambiente acolhedor e sem julgamentos, conseguiam compartilhar sentimentos que frequentemente permaneciam reprimidos.

 

A ansiedade na juventude também precisa ser compreendida para além de uma dimensão individual. Conforme discutem Ayres et al. (2009), os processos de vulnerabilidade envolvem fatores individuais, sociais e programáticos que influenciam diretamente as condições de saúde dos sujeitos. Assim, o sofrimento emocional dos adolescentes não pode ser analisado desconsiderando as desigualdades sociais, as violências cotidianas, as fragilidades das políticas públicas e as dificuldades de acesso ao cuidado em saúde mental, especialmente em municípios do interior.

 

Nesse sentido, ações realizadas no contexto escolar assumem papel estratégico. A escola não deve ser vista apenas como espaço de aprendizagem formal, mas também como território de produção de vínculos, cuidado e promoção da vida. Conforme aponta Ministério da Saúde (2013), práticas de promoção da saúde mental nas escolas contribuem para o fortalecimento da autoestima, desenvolvimento das habilidades socioemocionais e prevenção de agravos psíquicos. Em Apuarema-BA, a atividade possibilitou justamente esse movimento: transformar a escola em um espaço de acolhimento e sensibilização sobre saúde emocional.

 

Outro aspecto relevante observado durante a experiência foi a necessidade dos jovens serem ouvidos sem que seus sentimentos fossem minimizados. Muitas vezes, expressões como “isso é coisa da idade” ou “falta de ocupação” acabam invalidando sofrimentos reais e dificultando a busca por ajuda. A escuta psicológica, mesmo em ações breves e coletivas, pode favorecer reconhecimento emocional, fortalecimento de vínculos e ampliação das redes de apoio.

 

Além disso, trabalhar ansiedade com adolescentes exige linguagem acessível, metodologias participativas e aproximação com a realidade juvenil. Dinâmicas, rodas de conversa e atividades interativas mostraram-se fundamentais para estimular participação e reflexão. Mais do que transmitir informações, o objetivo foi construir um espaço de troca humana e sensibilização coletiva, no qual cada jovem pudesse perceber que não está sozinho em seus medos e angústias.

 

A experiência em Apuarema-BA reafirmou a urgência de ampliar ações intersetoriais voltadas à saúde mental da juventude, articulando educação, saúde, assistência social e comunidade. Falar sobre ansiedade é também falar sobre cuidado, escuta e direito à saúde mental. Em tempos marcados por aceleração, excesso de cobranças e fragilidade dos vínculos, promover espaços humanizados de acolhimento representa um compromisso ético e social com a vida dos jovens.

 

Por fim, compreende-se que iniciativas como essa contribuem para romper estigmas relacionados ao sofrimento psíquico e fortalecer práticas de promoção da saúde mental nos territórios. Escutar adolescentes, reconhecer suas dores e construir possibilidades coletivas de cuidado são caminhos fundamentais para a produção de saúde, autonomia e humanização.