Meu nome é Matheus Lang, sou estudante do Internato em Saúde Mental da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Alagoas. Nesta postagem, compartilho alguns dos aprendizados construídos durante meu estágio no CAPS Sadi, localizado no bairro de Bebedouro, em Maceió, Alagoas.

Minha passagem pelo CAPS possibilitou conhecer, de forma mais próxima, uma proposta de cuidado em saúde mental que ultrapassa o atendimento médico tradicional. Desde os primeiros dias, pude observar a importância do trabalho multiprofissional e compreender que o sofrimento psíquico não pode ser analisado de maneira isolada das condições familiares, sociais, econômicas e territoriais que atravessam a vida de cada pessoa.
Participei de triagens realizadas por profissionais de diferentes áreas, como Psicologia e Serviço Social. Esses momentos permitiram conhecer distintas histórias de vida e formas de sofrimento, muitas vezes relacionadas não apenas a sintomas psiquiátricos, mas também a conflitos familiares, fragilidade dos vínculos sociais, dificuldades financeiras, violência, preconceito e falta de acesso a direitos básicos.
Durante as triagens, tive a oportunidade de fazer perguntas, esclarecer dúvidas e refletir com a equipe sobre as necessidades de cada usuário. Essa experiência mostrou que a escuta inicial não deve servir apenas para classificar sintomas ou determinar um diagnóstico. Ela também representa o início da construção de um vínculo e de um projeto de cuidado adequado à realidade daquela pessoa.
Outro aspecto marcante do estágio foi a participação nas atividades coletivas promovidas pelo serviço. Cada profissional acompanhava grupos específicos, nos quais eram desenvolvidas rodas de conversa, práticas corporais e outras ações de convivência. Participei de encontros sobre diferentes temas e também de atividades físicas conduzidas com música e dança, utilizadas como formas de incentivar o movimento, a interação e a participação dos usuários.
Essas atividades mostraram que o cuidado em saúde mental também acontece por meio do corpo, da convivência, da criatividade e da possibilidade de compartilhar experiências. A música e a dança, por exemplo, não eram apenas recursos recreativos. Elas facilitavam a aproximação entre os participantes, estimulavam a expressão e criavam um ambiente no qual cada pessoa podia participar de acordo com seus limites e possibilidades.

Também acompanhei uma visita domiciliar destinada a pessoas encaminhadas para acompanhamento no CAPS, mas que ainda não haviam conseguido frequentar presencialmente o serviço. A equipe era composta por profissionais de diferentes áreas, incluindo uma médica residente, uma enfermeira e integrantes da equipe de assistência.
Estar na residência dos usuários permitiu perceber aspectos que dificilmente seriam compreendidos em uma consulta convencional. Foi possível conhecer o contexto familiar, as condições de moradia, a rede de apoio disponível e as dificuldades que impediam ou dificultavam o acesso ao tratamento. Mais do que levar o serviço até a casa, a visita domiciliar representou uma tentativa de aproximação, construção de confiança e inclusão progressiva no cuidado oferecido pelo CAPS.
Essa experiência também modificou minha compreensão sobre o que significa promover a reinserção social. Não se trata simplesmente de fazer com que alguém retorne a uma rotina considerada normal. Trata-se de favorecer autonomia, reconstruir vínculos, ampliar possibilidades de participação comunitária e reconhecer o usuário como sujeito de direitos, desejos e projetos.
Para encerrar nossa passagem pelo serviço, desenvolvi com meus colegas uma atividade temática inspirada na Copa do Mundo e no futebol. Preparamos uma decoração, organizamos um bolão para que os participantes registrassem seus palpites para o jogo do dia, entre Brasil e Haiti, e realizamos uma roda de conversa sobre sentimentos, lembranças, conquistas e frustrações.

Utilizamos o futebol como ponto de partida para falar sobre temas da vida cotidiana. Durante a dinâmica, uma bola circulava entre os participantes enquanto uma música tocava. Quando a música parava, quem estivesse segurando a bola respondia a uma das perguntas preparadas pelo grupo.
As questões abordavam temas como o significado de uma vitória, as dificuldades já superadas, as pessoas que “jogam no nosso time”, as maneiras de lidar com uma derrota e aquilo que ajuda alguém a tentar novamente depois de uma frustração. A linguagem do futebol tornou a conversa mais leve e acessível, sem retirar a profundidade dos assuntos discutidos.
Mais de vinte usuários e acompanhantes participaram da atividade. Aos poucos, cada pessoa compartilhou um pouco de sua história, de suas conquistas, de suas perdas e das batalhas que ainda enfrentava. Percebemos que uma pergunta aparentemente simples sobre futebol podia abrir espaço para falar sobre família, solidão, esperança, apoio, medo, amizade e desejo de mudança.
Ao final, registramos os palpites do bolão e fomos surpreendidos por uma nova roda de conversa organizada pelos próprios participantes. Eles quiseram avaliar a atividade, agradecer pela nossa passagem pelo CAPS e conversar conosco sobre nossa futura atuação médica.
Nesse momento, ouvimos conselhos sobre como eles gostariam de ser tratados pelos médicos do futuro. Falaram sobre a importância de serem escutados com atenção, de não serem reduzidos a um diagnóstico e de encontrarem profissionais capazes de conversar com respeito e sem julgamento. Foi uma verdadeira devolutiva sobre nossa formação, talvez mais valiosa do que muitas aulas formais.
A experiência no CAPS Sadi contribuiu para que eu compreendesse que cuidar em saúde mental não significa apenas prescrever medicamentos ou diminuir sintomas. O cuidado envolve presença, escuta, vínculo, território, trabalho em equipe e reconhecimento da singularidade de cada pessoa.
Saio dessa vivência levando um aprendizado simples, mas fundamental: antes de qualquer diagnóstico, existe alguém com uma história que precisa ser ouvida. A formação médica ganha outro sentido quando aprendemos não apenas a perguntar o que uma pessoa tem, mas também a compreender o que aconteceu com ela, como vive, quais vínculos possui e que caminhos deseja construir.
O CAPS mostrou, na prática, que a liberdade também é parte do tratamento e que o cuidado pode acontecer por meio de uma consulta, de uma visita domiciliar, de uma dança ou de uma bola que circula em uma roda de conversa. Às vezes, é justamente quando o médico fala menos e escuta mais que começa a compreender verdadeiramente quem está diante dele.
Por Sérgio Aragaki
Matheus,
Foi emocionante ler o seu relato. Muitas aprendizados, muitas contribuições para as pessoas que participam do CAPS.
Saber que tantas coisas boas aconteceram durante tão curto período de estágio reafirma a importância do mesmo na formação médica e de demais profissões ou pessoas.
Seguimos na Luta em Defesa do SUS, na Luta Antimanicomial.
AbraSUS!