Meu relato sobre o estágio nos CAPS de Maceió

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Meu nome é Letícia Bias de Queiroz, sou interna em Saúde Mental pela faculdade de medicina da Universidade Federal de Alagoas,  e esse é o meu relato sobre o que vivi e sobre o que aprendi ao estagiar nos CAPS.

A minha passagem pelo CAPS no estágio de saúde mental foi uma oportunidade muito boa para ver na prática como o serviço funciona, especialmente no que tange à atenção primária. Na teoria, estudamos sobre a reforma psiquiátrica, mas estar lá me fez entender de verdade o que significa tirar o foco do hospital e levar o cuidado para a comunidade, no dia a dia do paciente. Mesmo sendo uma experiência breve, tive contato com uma prática muito singular de gerar saúde, que foi muito importante para a minha formação.

 

No meu primeiro dia, fui ao CAPS Rostan, e por falta de práticas em grupo, apenas tive a oportunidade de ler os prontuários dos usuários, e me chamou atenção ver que muitos frequentam o CAPS várias vezes por semana, dependendo do transporte do serviço. Vendo o histórico deles, percebi que essa rotina constante é um ponto de apoio fundamental para quem enfrenta um sofrimento psíquico grave, e essa presença frequente é o que ajuda a evitar que o paciente entre em crise e precise de uma internação, que é um processo violento e muito custoso. Entretanto, isso evidencia ainda mais como esses pacientes ficaram desamparados após a interrupção das atividades do Rostan.

No CAPS Casa Verde, participei de algumas atividades em grupo, como o mentes brilhantes, que funciona com dinâmicas de perguntas para estimular o raciocínio, e foi interessante perceber que o conteúdo era adaptado em repertório cultural para conseguir desafiar e engajar os usuários do serviço, também trabalhando a convivência em grupo, a paciência e a tolerância a errar. Sob a minha óptica, é fundamental que pessoas que convivam com algum adoecimento mental tenham um espaço onde as expectativas são ajustadas para a realidade e dificuldade deles.

 

Outro momento legal foi a oficina de macramê, que por se uma uma atividade manual com vários fios, exige concentração e ajuda a acalmar a ansiedade. Algo bem legal que ocorre nessa oficina é a colaboração durante o processo: quem sabia mais ensinava quem estava começando, e isso criava uma interação muito boa entre todos. Além disso, para muitos acaba se tornando um ofício que gerava renda, na ocasião pude observar um usuário que estava produzindo uma bolsa muito complexa, que era apenas uma de suas várias obras. Isso se contrasta profundamente com os documentários que vimos dos antigos manicômios, nos quais não havia espaço para a mente humana se desenvolver e se expressar.

Na semana do dia dos pais, acompanhei uma atividade em que o pessoal escreveu cartas, fez desenhos e, após todos terminarem, foi conversado sobre o tema. Nessa atividade saíram muitas histórias diferentes: pessoas lembrando com carinho do pai, falando da dor da perda e relatos de quem nunca conheceu a figura paterna. No final, o grupo se reuniu para fazer um letreiro coletivo, mostrando como a arte ajuda a colocar para fora sentimentos que às vezes são difíceis de falar.

Também acompanhei um momento de lanche coletivo, no qual os próprios usuários ajudaram no preparo da comida na cozinha e na organização do espaço. Apesar de ser uma tarefa simples, ensina bastante sobre autocuidado e rotina, e os ajuda a ganhar mais autonomia nas tarefas do dia a dia.

 

No fim das contas, o estágio no CAPS Casa Verde foi um contato muito bacana e importante, pois lá eu vi que o cuidar em saúde mental vai muito além do consultório, e ter vivido essa rotina, mesmo que por pouco tempo, me deu uma noção bem mais prática e realista de como a saúde pública pode e deve acolher as pessoas. Também, a experiência me deu uma boa noção de como um paciente com grande acometimento da sua saúde mental ainda pode melhorar, se desenvolver, e ocupar seu espaço na sociedade, que é seu direito.