No dia 19 de maio, o projeto Nariz na Mochila, por meio da ação Visitalhaço, viveu uma experiência que reafirmou algo que a humanização nos ensina diariamente: nem toda comunicação precisa de palavras.

Ao adentrarmos a UTI do Hospital Estadual da Criança e do Adolescente (HECAD), encontramos um cenário diferente. Muitos dos pacientes eram bebês, e a linguagem verbal não seria nosso principal caminho de aproximação. Foi então que recorremos àquilo que a arte oferece de mais essencial: o convite ao olhar.
Arcos, malabares, sons produzidos por um pequeno tambor e por uma washboard passaram a conduzir a atenção dos leitos para aquele espaço de encontro que se criava. Cada movimento era uma tentativa de diálogo. Cada som, uma possibilidade de conexão.
Foi nesse percurso que encontramos Ana Paula.
Antes de entrar no quarto, havíamos visto seu nome na porta. Quando nos aproximamos, o palhaço anunciou que possuía poderes extraordinários e começou a adivinhar que seu nome começava com a letra “A”. O sorriso surgiu imediatamente. Em seguida, veio a descoberta do nome completo e até mesmo do nome da mãe, fortalecendo uma brincadeira simples, mas potente: a construção compartilhada do imaginário.
Entre mágicas improvisadas e olhares atentos, Ana Paula fez um pedido:
— Eu queria um nariz igual ao seu.
Por uma dessas coincidências que a palhaçaria adora transformar em destino, havia um pequeno nariz vermelho guardado no bolso. Naquele dia, o personagem estava vestido como um trabalhador dos serviços gerais: macacão utilitário, galochas amarelas, lenço amarelo e um pano de limpeza pendurado à cintura. Em uma pequena mágica, o nariz apareceu.
Quando Ana Paula colocou o nariz vermelho, algo também se transformou no ambiente. Havia uma escadinha ao lado do leito, e dela surgiu um novo plano de encontro: um lugar onde a imaginação podia subir alguns degraus acima da doença, dos aparelhos e das limitações daquele contexto.
Nos demais quartos, muitos pacientes estavam em precaução de contato. A visita precisou acontecer através de pequenas janelas. E aconteceu. O diabolô lançado ao alto, as músicas cantadas na porta e o clássico da Vila Sésamo — “Só eu sou eu” — encontraram caminhos para atravessar vidros, barreiras físicas e protocolos assistenciais.
Ao final da visita, ficou a sensação de que grande parte do que foi vivido não caberia em relatórios ou descrições objetivas. Era uma experiência construída principalmente pela linguagem não verbal.
O que comunica um olhar atento? O que comunica um som inesperado? O que comunica um objeto em movimento, um sorriso compartilhado ou a simples disponibilidade para estar presente?
Na UTI, naquele dia, os malabares não foram apenas malabares. Os sons não foram apenas sons. Tornaram-se ferramentas de encontro.
Porque, às vezes, humanizar é justamente isso: criar espaços onde o corpo, a arte e a presença consigam dizer aquilo que as palavras sozinhas não alcançam.
Por Sérgio Aragaki
Juan,
Mas que relato maravilhoso!
Vc nos lembra que o cuidado em saúde vai se tecendo nas relações de afeto, no ato criativo, no compartilhar.
AbraSUS!