Relato de experiência: humanização no cuidado à população em situação de rua
Clara Segatto Mendes1 e Vinícius Barros Farinha2
1 Graduanda de Medicina pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUCPR
2 Graduando de Medicina pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUCPR
Durante a aula da Liga Acadêmica de Humanização no Cuidado em Saúde (LAHCS) da PUC-PR , foi promovida uma discussão a respeito da realidade de pessoas em situação de rua e como a vulnerabilidade social impacta diretamente o processo de adoecimento e cuidado em saúde. Ao longo do encontro, foi proposta uma reflexão sobre a mudança de perspectiva necessária na prática clínica, deixando de enxergar a situação de rua apenas como uma questão social e passando a compreendê-la como um importante acelerador biológico e clínico de doenças cardiovasculares, renais, metabólicas, psiquiátricas e neurodegenerativas. Foram abordados temas como insegurança alimentar, ausência de acesso contínuo aos serviços de saúde, dependência química, exposição à violência, envelhecimento precoce, declínio cognitivo antecipado e aumento expressivo da mortalidade por doenças crônicas nessa população. A aula também evidenciou a incompatibilidade existente entre as diretrizes tradicionais de tratamento e a realidade vivida por esses pacientes, demonstrando como prescrições aparentemente simples podem se tornar inviáveis diante da falta de alimentação adequada, ausência de refrigeração para medicamentos, insegurança nos abrigos, e da inexistência de locais apropriados para repouso e continuidade terapêutica. Nesse contexto, foram debatidas estratégias de redução de danos, prevenção de recaídas, adaptação farmacológica e tomada de decisão compartilhada, além da importância do acolhimento, do respeito ao nome social, da quebra da burocracia excludente e da garantia do acesso universal à saúde como pilares fundamentais da humanização no SUS.
Assim, a discussão permitiu compreender que a humanização no cuidado em saúde ultrapassa a oferta de tratamentos e procedimentos, exigindo sensibilidade para reconhecer as diferentes condições de vida de cada indivíduo. A partir da aula, tornou-se evidente que o cuidado integral à população em situação de rua depende não apenas do conhecimento técnico, mas também da construção de vínculos, de confiança, da escuta ativa, da ausência de julgamentos e da adaptação das condutas à realidade de cada paciente. Além disso, foi possível refletir sobre como práticas aparentemente simples, como acolher de forma imparcial e respeitar a autonomia do paciente, assim como, suas escolhas, possuem impacto direto na adesão ao tratamento e na dignidade e que podem ser um desafio ao atender pessoas em situação de rua. Dessa forma, a aula reforçou a importância de uma atuação ética, empática e comprometida com a equidade, reconhecendo que promover saúde também significa considerar os determinantes sociais envolvidos no processo de adoecimento. A experiência dialoga diretamente com os princípios da Rede HumanizaSUS, especialmente no que se refere ao fortalecimento do acolhimento, da inclusão e do acesso universal à saúde. Ao compreender a população em situação de rua para além dos estigmas frequentemente associados a ela, pudemos ampliar nossa percepção sobre o papel do profissional de saúde na defesa de um SUS mais acessível, resolutivo e humanizado, que não tem apenas a pretensão de diagnosticar mas também de garantir a inclusão do paciente, satisfação e adesão. Assim, a atividade contribuiu para a formação acadêmica e humana dos integrantes da liga, incentivando uma prática clínica mais sensível às vulnerabilidades sociais e alinhada aos princípios de integralidade, equidade e respeito à diversidade que fundamentam o cuidado em saúde pública no Brasil.
Referências
COSTA, Ana Paula Motta. População em situação de rua: contextualização e caracterização. Textos & Contextos (Porto Alegre), v. 4, n. 1, p. 1–15, 2005. Disponível em: Textos & Contextos (Porto Alegre). Acesso em: 23 maio 2026.
HANNA SOBRINHO, Miguel Ibraim Abboud. Aula ministrada na Liga Acadêmica de Humanização no Cuidado em Saúde (LAHCS) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) sobre população em situação de rua e humanização no SUS. Curitiba, 2026.