Relato do meu período de estágio no CAPS

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Meu nome é Rodrigo Teixeira Lemes, sou estudante da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e, durante o estágio de Saúde Mental, tive a oportunidade de vivenciar de forma mais próxima a realidade dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Esta postagem representa um relato sobre minha experiência, os aprendizados adquiridos ao longo desse período e, principalmente, sobre a forma como esse contato modificou e ampliou minha compreensão a respeito do cuidado em saúde mental.

Durante o estágio, pude acompanhar as atividades desenvolvidas em três diferentes serviços: o CAPS Rostan, o CAPS Casa Verde e o CAPS Sadi. A possibilidade de conhecer diferentes unidades foi especialmente importante, pois me permitiu perceber que, embora cada serviço possua suas particularidades, todos compartilham uma proposta fundamental: oferecer um cuidado em saúde mental que considere o indivíduo para além de um diagnóstico ou de um conjunto de sintomas.

Esse período representou uma experiência extremamente enriquecedora para minha formação acadêmica, profissional e pessoal. Antes de vivenciar a rotina dos CAPS de maneira tão próxima, grande parte do contato com a psiquiatria durante a graduação estava relacionada ao reconhecimento de transtornos mentais, critérios diagnósticos e tratamentos farmacológicos. No entanto, a experiência dentro desses serviços demonstrou, de maneira muito concreta, que o cuidado em saúde mental é muito mais amplo e complexo do que a simples escolha de uma medicação ou o controle de determinados sintomas.

Ao longo do estágio, tive a oportunidade de estabelecer um contato mais próximo com os usuários, conversar com eles, ouvir suas histórias e compreender melhor algumas das dificuldades presentes em suas vidas. Essa aproximação foi fundamental para perceber que cada pessoa chega ao serviço trazendo consigo não somente uma doença, mas também experiências, relações familiares, dificuldades sociais, medos, expectativas, desejos e diferentes formas de compreender aquilo que está vivendo.

A escuta dos usuários foi um dos aspectos que mais contribuíram para meu aprendizado. Muitas vezes, aquilo que mais aflige uma pessoa não pode ser completamente compreendido apenas por meio de perguntas relacionadas aos sintomas de uma determinada doença. Questões relacionadas à solidão, às dificuldades familiares, ao preconceito, à ausência de vínculos sociais, às dificuldades financeiras e à própria sensação de não ser compreendido podem possuir grande influência sobre o sofrimento psíquico. Dessa forma, estar presente, conversar e ouvir de maneira atenta também fazem parte do processo terapêutico.

Outro ponto que me chamou bastante atenção foi perceber a importância das estratégias não medicamentosas no tratamento dos usuários. Durante o estágio, participei e acompanhei diferentes atividades realizadas dentro dos CAPS, entre elas grupos de música, crochê e dança. À primeira vista, essas atividades podem parecer simples quando comparadas a uma consulta médica ou à prescrição de uma medicação. Entretanto, ao acompanhar a participação dos usuários, torna-se evidente o impacto que esses momentos podem apresentar sobre o bem-estar, a socialização e a qualidade de vida dessas pessoas.

Foi possível perceber a felicidade de muitos usuários ao participarem dessas atividades. Durante os grupos, pessoas que em outros momentos poderiam estar mais retraídas passavam a conversar, sorrir, interagir com os demais participantes e demonstrar habilidades e interesses que talvez não aparecessem durante uma consulta convencional. Esses momentos permitiam que cada indivíduo fosse reconhecido não apenas como paciente, mas como uma pessoa com capacidades, preferências, criatividade e potencialidades próprias.

O grupo de música, por exemplo, demonstrava como uma atividade coletiva pode se transformar em um importante espaço de expressão. A música permitia interação, lembranças, comunicação e momentos de descontração. Da mesma forma, atividades como o crochê proporcionavam concentração, desenvolvimento de habilidades manuais, construção de autonomia e convivência entre os participantes. Já a dança possibilitava não somente a realização de uma atividade física, mas também momentos de diversão, expressão corporal e fortalecimento das relações entre os usuários.

Com o passar do tempo nesses serviços, fui compreendendo cada vez mais a importância da terapia ocupacional e das diferentes atividades terapêuticas dentro do cuidado em saúde mental. Essas estratégias podem contribuir significativamente para a estabilização e para a recuperação dos usuários, auxiliando na organização da rotina, no desenvolvimento da autonomia, na construção de vínculos e no fortalecimento da autoestima.

Essa experiência também me levou a refletir sobre o uso de medicamentos na psiquiatria. Evidentemente, o tratamento farmacológico possui papel fundamental em diferentes transtornos mentais e pode ser indispensável para muitos pacientes. Entretanto, o estágio mostrou que o cuidado não deve se limitar à medicação. Em determinadas situações, quando outras estratégias terapêuticas não são valorizadas, existe o risco de tentar solucionar diferentes formas de sofrimento exclusivamente por meio do aumento ou da associação de medicamentos.

A utilização excessiva de determinadas medicações pode trazer efeitos colaterais importantes, comprometendo a qualidade de vida do paciente. Nesse contexto, compreender a contribuição das atividades terapêuticas, da convivência em grupo, do acompanhamento multiprofissional, da criação de vínculos e da reinserção social é fundamental. Muitas vezes, essas estratégias podem colaborar para que o indivíduo alcance maior estabilidade e funcionalidade sem que todo o tratamento seja concentrado exclusivamente na farmacoterapia.

Um dos principais aprendizados proporcionados pelo estágio foi justamente compreender a importância de uma abordagem multiprofissional. Dentro do CAPS, o cuidado é construído por profissionais de diferentes áreas, cada um contribuindo com uma perspectiva específica sobre o usuário. Médicos, enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e outros profissionais trabalham de forma integrada na tentativa de oferecer um atendimento mais completo.

Essa convivência multiprofissional demonstrou que nenhuma área, isoladamente, é capaz de compreender todas as dimensões envolvidas no sofrimento mental. Para um estudante de medicina, essa percepção é particularmente importante. Em muitos momentos da formação médica, existe uma tendência natural de concentrar a atenção no diagnóstico, nos exames e na prescrição. Entretanto, no campo da saúde mental, torna-se ainda mais evidente a necessidade de compreender fatores familiares, sociais, emocionais e funcionais presentes na vida de cada usuário.

O estágio nos CAPS também ampliou minha compreensão sobre a importância do vínculo entre profissional e paciente. Em saúde mental, o vínculo terapêutico possui um papel central. O usuário precisa sentir que existe um ambiente no qual poderá ser acolhido e escutado, sem que sua identidade seja reduzida à sua doença. Ao acompanhar a rotina dos serviços, pude perceber como muitos usuários criavam relações de confiança com os profissionais e com outros pacientes, transformando o CAPS em um importante espaço de convivência e suporte.

Esse aspecto me fez refletir sobre como a continuidade do cuidado pode modificar a relação entre o paciente e o sistema de saúde. Diferentemente de atendimentos pontuais, nos quais muitas vezes existe pouco tempo para conhecer profundamente a história de uma pessoa, o acompanhamento realizado nos CAPS possibilita observar a evolução dos usuários, compreender suas dificuldades ao longo do tempo e adaptar as estratégias terapêuticas conforme suas necessidades.

Também foi possível compreender melhor a proposta de cuidado em liberdade que orienta a atenção psicossocial. O objetivo do tratamento em saúde mental não deve ser simplesmente afastar o indivíduo da sociedade, mas ajudá-lo a construir possibilidades de viver dentro dela, preservando sua autonomia, sua dignidade e seus vínculos. Dessa forma, o CAPS se apresenta como um espaço que busca substituir uma lógica de isolamento por uma lógica de inclusão e acompanhamento contínuo.

A experiência também contribuiu para desconstruir algumas ideias e preconceitos relacionados às pessoas com transtornos mentais. O contato cotidiano com os usuários evidencia que um diagnóstico psiquiátrico não define completamente uma pessoa. Cada indivíduo possui uma história própria, relações afetivas, habilidades, projetos, limitações e desejos. Perceber isso é fundamental para oferecer um cuidado mais humano e menos estigmatizante.

Ao longo do estágio, passei a perceber com maior clareza a importância de enxergar aquilo que existe para além da doença. Um paciente pode apresentar um determinado transtorno e, ao mesmo tempo, gostar de música, possuir habilidades artísticas, valorizar amizades, ter planos para o futuro e encontrar prazer em diferentes atividades. Quando o cuidado se concentra exclusivamente na doença, todas essas outras dimensões podem acabar sendo esquecidas.

Outro aprendizado importante foi compreender que nem sempre o resultado terapêutico pode ser medido simplesmente pelo desaparecimento dos sintomas. Em muitos casos, conseguir retornar a uma atividade, reconstruir uma relação familiar, estabelecer uma rotina, participar de um grupo ou recuperar determinado grau de independência pode representar uma grande conquista. A evolução de cada usuário precisa ser avaliada de acordo com sua realidade e com seus próprios objetivos.

Por isso, acredito que a experiência no CAPS foi essencial para ampliar meu entendimento sobre o conceito de saúde. Saúde mental não significa apenas a ausência de sintomas psiquiátricos. Ela envolve a capacidade de estabelecer vínculos, participar da sociedade, desenvolver atividades significativas e encontrar formas de lidar com as dificuldades existentes ao longo da vida.

Para minha futura prática médica, essa experiência deixa ensinamentos que vão além da própria psiquiatria. Independentemente da especialidade escolhida, todo médico terá contato com pessoas apresentando algum grau de sofrimento emocional ou transtorno mental. Saber ouvir, acolher e reconhecer que uma pessoa não pode ser definida exclusivamente por uma doença são competências importantes em qualquer área da medicina.

O estágio também reforçou para mim a importância de evitar uma prática excessivamente centrada na medicalização. A medicação possui seu espaço e sua indicação, mas precisa estar inserida dentro de um plano terapêutico mais amplo. Em muitos casos, promover autonomia, fortalecer relações sociais, oferecer atividades significativas e proporcionar espaços de escuta podem ter um impacto tão relevante quanto algumas intervenções farmacológicas.

Ao final dessa experiência, percebo que minha passagem pelos CAPS Rostan, Casa Verde e Sadi contribuiu significativamente para modificar minha forma de enxergar a saúde mental. Mais do que aprender sobre diagnósticos e tratamentos, pude compreender melhor a importância do cuidado humanizado, da escuta, do vínculo, da autonomia e da atuação conjunta de diferentes profissionais.

Pude perceber, sobretudo, que cuidar de uma pessoa em sofrimento psíquico significa tentar compreender quem ela é, o contexto em que está inserida e quais são suas necessidades naquele determinado momento. Significa reconhecer que, muitas vezes, uma conversa, uma atividade em grupo, uma música, uma dança ou simplesmente a oportunidade de estar em um ambiente acolhedor também podem fazer parte do tratamento.

Assim, considero minha experiência nos CAPS uma etapa de grande importância dentro da minha formação médica. Saio desse estágio com uma compreensão mais ampla do papel do médico dentro da saúde mental e com a certeza de que oferecer um cuidado adequado exige muito mais do que conhecimento técnico. É necessário também disponibilidade para ouvir, respeito pela singularidade de cada indivíduo e compreensão de que o tratamento deve buscar não somente o controle dos sintomas, mas também a construção de autonomia, qualidade de vida e possibilidades de reinserção e participação social.

Mais do que conhecer o funcionamento de um serviço de saúde mental, a experiência nos CAPS possibilitou compreender, na prática, que cada usuário deve ser visto antes de tudo como uma pessoa. Esse talvez tenha sido um dos principais ensinamentos desse período e certamente será algo que levarei comigo durante o restante da minha formação e da minha futura atuação como médico.