Comunicação de risco, vigilância sanitária e política de saúde.

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Breve comentários sobre a leitura…

Conversando com um amigo sobre o ensaio que estava escrevendo, pedi a ele uma rápida leitura do que estava tomando forma. Ele disse que era um artigo para "acadêmico" ver. Refleti sobre esse comentário e segui adiante, questionando o que estava fazendo, visto que, o tema aqui proposto é um tema que está, mais ou menos, longe dos campos de atuação que estou me dedicando. E até mesmo, os tipos de textos que venho escrevendo na RHS. 

Contudo, acredito que escrever sobre um tema que foge do que eu já escrevi aqui, enriquece, possibilidades de sempre estar perto de minhas afetações e de poder discutir. Eu espero que este texto não seja para "acadêmico" ver (com todo o respeito que eu tenho a todos os autores e autoras que leio na Universidade e fora dela). Mas, quando este amigo disse isso, referia-se ao modo como a ciência está longe das pessoas. 

Comunicação de risco, vigilância sanitária e política de saúde 

A intenção de escrever este ensaio – ao invés de um artigo – surgiu após o fechamento e avaliação da disciplina “política de saúde e vigilância sanitária” da graduação em saúde pública da USP, sendo ministrada por Maria Cristina da Costa Marques e Nicolina Silvana Romano Lieber, docentes da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP. Definimos o ensaio, como método de texto em prosa, para fundamentar uma visão pessoal e coletiva sobre comunicação de risco, imprimindo premissas, inferências e conclusões do trio que escreve sobre o assunto. Estamos expondo uma opinião sobre o tema que precisa ser apresentado a todos/as para enriquecer, ainda mais, a vigilância sanitária como uma política de saúde.

Ainda, a disciplina de vigilância sanitária junto às disciplinas “atividades integradas VII”, “vigilância em saúde” do sétimo semestre da graduação, possibilitam um diálogo mais ampliado do tema, de caráter interdisciplinar. Sob a trilha de disciplinas da saúde pública, não podemos deixar de citar “gestão de saúde ambiental em situações de emergências” do sexto semestre, ampliando mais ainda, a discussão sobre comunicação de risco.

O objeto deste ensaio é de discutir, um pouco, sobre comunicação de risco, bem como, sugerir elementos para a construção de uma agenda coletiva para os campos da saúde pública, comunicação, ciências sociais, saúde ambiental e difusão cientifica sobre o tema proposto.

Comunicação: comunicar o que?

Pode parecer fácil, quando pensamos, o sentido da comunicação. Comunicar, conversar, falar, informar, transmitir são sinônimos da comunicação quando queremos transmitir algo: conhecimento ou saber. Contudo, a comunicação é uma condição humana inerente à vida e diz respeito à linguagem e a hominização do homem. É uma ação constitutiva do sujeito que assume novas complexidades na sociedade contemporânea (do risco), em função da incorporação tecnológica, da diversidade dos fluxos de informação e da relação emissor-receptor.

A experiência da comunicação para a saúde esbarra em vícios e preconceitos. As revistas, reportagens, televisão e rádio tem visão pouco abrangente sobre o campo da saúde pública e transformam o processo saúde-doença em um grande palco sensacionalista, reducionista e corporativista (lobby da indústria para a saúde). Com o foco, em sua maior parte das notícias, na doença, a mídia desvia os olhares para as políticas de saúde e descontextualiza a ideia da prevenção, promoção e educação em saúde. Estimula um processo de biomedicalização da sociedade e não debate condições para a melhoria da qualidade de vida das pessoas.

Mas, falar de comunicação é falar de uma circulação de signos que a cultura modifica os modos de atribuição de sentidos, como por exemplo, os valores sobre o alimento, os riscos a saúde e suas formas de prevenção na sociedade. As relações sociais modificam a comunicação sobre alimentos e saúde? Ao mesmo tempo, é falar de uma representação de saberes, estes, sendo a conversação, o diálogo e as práticas sociais sobre a saúde e a doença: como perceber o risco alimentar e como a cultura organiza a experiência para este risco alimentar*? (*entendemos risco alimentar como problemas relacionados ao consumo, produção e circulação de alimentos.)

A comunicação de risco é um conceito novo no campo de saberes e práticas da saúde pública e tem sido utilizado pela vigilância sanitária e saúde ambiental, o que permite um agir especifico de cada área conforme suas atribuições e competências. Tanto a vigilância sanitária quanto a saúde ambiental buscam a garantia da qualidade de vida das coletividades. E, ambas, possuem um grande desafio para a comunicação em saúde que é de superar a cientificidade de seus métodos e popularizar seus discursos, a linguagem cientifica, nem sempre, faz sentido para as pessoas.

O alto nível de dificuldade para entender a linguagem cientifica, a complexidade dos estudos científicos e a dificuldade de acordo entre os cientistas tomadores de decisão na caracterização, comparação, categorização e priorização dos riscos e de ações reguladoras são alguns, exemplos, críticos da comunicação de risco com a ciência. Ademais, a relação das pessoas com seu ambiente, produtos e objetos de consumo é mediada por valores que definem as formas de uso e de percepção e aceitação de riscos. Fatores ligados à experiência modulam a percepção e os modos de lidar com os riscos de grupos e pessoas: o risco não é o mesmo para todos, nem sua percepção.

Se, quisermos, fazer um tipo de comunicação que seja dialógica com os contextos de vida de cada pessoa e das coletividades devemos considerar o conhecimento técnico-científico existente sobre o risco, controle e o conhecimento popular, as relações do poder público do qual a vigilância sanitária é parte (incluímos também a gestão em saúde ambiental em contextos de crise e emergências), com a sociedade em cada região, os meios de comunicação com a população, governo e setor produtivo, recursos de comunicação e preferências dos diferentes atores e peculiaridades da linguagem em cada região e as dimensões sócio-culturais envolvidas no risco em questão (políticas, econômicas, culturais, ideológicas).

Comunicação de risco, saúde e ambiente urbano

O risco é complexo e multifacetado, inseparável da incerteza, da ameaça e do perigo. Por isso, é importante pensar a comunicação de risco como parceira da gestão de risco, próximo dos territórios e da cultura. Deve ser pensada como espaço para construção coletiva de alternativas e estratégias frente a uma percepção compartilhada de risco.

Por fim, a comunicação de risco tem um desafio de incorporar suas práticas como ações de promoção da saúde como ponto de partida os determinantes sociais (capacidade de mobilização é influenciada pela percepção das condições sociais e pelo acesso à informação como guia para resolução dos problemas).

A comunicação de risco, junto, com a intersetorialidade, comunicação, participação popular e planejamento participativo tem enorme potencial de superar as práticas fragmentadas dos problemas coletivos que surgem. 

Leituras que nortearam a construção desta síntese

BIZZO, MLG. Difusão científica, comunicação e saúde. Cad. Saúde Pública vol.18 no.1 Rio de Janeiro Jan./Feb. 2002.

COSTA, EA., org. Vigilância Sanitária: temas para debate [online]. Salvador: EDUFBA, 2009. 237 p.

SPINK, MJP. MEDRADO, B. MELLO, RP. Perigo, Probabilidade e Oportunidade: A Linguagem dos Riscos na Mídia. Psicologia: Reflexão e Crítica, 2002, 15(1), pp. 151-164.

DI GIULIO, GM. PEREIRA, NM. FIGUEIREDO, BR. O papel da mídia na construção social do risco: o caso Adrianópolis, no Vale do Ribeira. História, Ciências, Saúde Manguinhos, Rio de Janeiro, v.15, n.2, p.293-311, abr.-jun. 2008.

FREITAS, CM. GOMEZ, CM. 'Technological risk analysis from the perspective of the social sciences'. História, Ciências, Saúde—Manguinbos, vol. III (3):485-504, Nov. 1996-Feb. 1997.

DI GIULIO, GM. FIGUEIREDO, BR. FERREIRA, LC. ANJOS, JASA. Comunicação e governança do risco: A experiência brasileira em áreas contaminadas por chumbo. Ambiente & Sociedade, Campinas v. XIII, n. 2, p. 283-297, jul.-dez. 2010

DI GIULIO, GM et al. Experiências brasileiras e o debate sobre comunicação e governança do risco em áreas contaminadas por chumbo. Ciência & Saúde Coletiva, 17(2):337-349, 2012.

Oliveira, NA. CONSUMO SEGURO: um novo determinante social da saúde, um desafio e convite em defesa da Saúde. Acesso em 9/6/2013. Disponível em: http://blogs.bvsalud.org/ds/2012/01/11/consumo-seguro-um-novo-determinante-social-da-saude-um-desafio-e-convite-em-defesa-da-saude/

Allan, Beatriz e Carolina. Autor e autoras.