Nos últimos dias, a comunidade do campo da Psicologia em Minas Gerais foi abruptamente arrastada – mas não surpreendida, pelo posicionamento do Conselho Regional em relação ao PL 4.992/25, que regulamenta o acolhimento das Comunidades Terapêuticas (CTs) no Estado. No parecer, comunica e anuncia a construção de um novo projeto proposto pela gestão “Muda Psicologia”: baseado em evidências, irão encarcerar o projeto antimanicomial.
Em um país de memória curta, marcado por grandes manicômios, como o Holocausto Brasileiro, em Barbacena, empreendemos a luta constante contra uma sociedade manicomial, que aprisiona, silencia e abandona, nas esquinas e marquises, o sofrimento. Não há dúvidas sobre o quão distantes estamos de acolher e proporcionar cuidado integral a todos aqueles que se tornam mercadoria nas mãos das CTs, nem de que a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) está passando por processos de precarização desde o golpe contra Dilma, em 2016. Entretanto, quanto custa narrar a história ao lado dos vencedores?
Quanto vale jogar no time dos ganhadores? De que vale colocar formigas em ninhos de vespas? Policiar não está no Código de Ética. Aposta-se que será de dentro dos muros que será possível vigiar, averiguar, monitorar ou patrulhar, como se fosse possível corrigir ou produzir manicômios humanizados, como se houvesse humanidade do lado de dentro dos muros da segregação. Rasga-se o SUS, afunda-se a Reforma Psiquiátrica e enterra-se a RAPS em detrimento da produção mercadológica e lucrativa da loucura e da miséria produzida pelo capital.
Imagine só se nós, que estamos do lado de cá da história, narradores de sucessivas derrotas, que comemoram os cintilantes vagalumes da vida diária, acreditássemos que os de lá resolveriam por nós o que é nosso. Não há luta quando há entreguismo. Não há Psicologia onde há muros que a separam da sociedade. As CTs reproduzem, em seus campos de concentração, o trabalho forçado e escravo como salvação, o curandeirismo em forma de disciplina e religiosidade e, assim como o CRP, utilizam-se de “evidências científicas” para legitimar a tortura.
É preciso fazer metáfora, ter ousadia para acreditar e construir, no dia a dia, o projeto de sociedade que queremos. Os utópicos – assim como o lado de lá nos nomeia, dizem de algo nosso: a loucura de sonhar com uma sociedade melhor. É preciso ter coragem para exigir compromisso com a vida. Nosso modo de construir se dá pelo diferente, pelo imensurável às lupas dos laboratórios, mas evidencia o rigor da sustentação teórico-técnica e da tarefa em uma práxis ética-política e visceral.
Aos companheiros e companheiras que acreditam em um projeto antimanicomial de sociedade: é a potência do encontro que produz ressonâncias nos poderes e resistências entre os pares. Seguiremos na defesa radical da vida, na identificação das sementes de vida e das sementes de morte, da aniquilação, do genocídio e do fascismo que constrói muros. Enquanto os de lá constroem muros, nós, de cá, ocuparemos as frestas, mas jamais o lado de dentro dos muros.