“Estamos aqui querendo existir”, afirma primeira paciente atendida no Ambulatório Trans do HMIJS

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Mais um momento histórico do Hospital Materno-Infantil Dr. Joaquim Sampaio, em Ilhéus, foi registrado da manhã de hoje (16), com os primeiros atendimentos ambulatoriais à comunidade trans da região. O projeto-piloto passou a permitir a realização de exames de rotina e hormonais em pacientes que passam pela afirmação de gênero. Aproximadamente 20 pacientes foram atendidos no Ambulatório do HMIJS onde, também, nas próximas semanas, serão iniciadas consultas nas especialidades de endocrinologia e ginecologia. Mas a direção do hospital trabalha para oferecer, ainda neste primeiro semestre, serviços nas especialidades de psicologia, psiquiatria e urologia. O Materno-Infantil é uma obra do Governo da Bahia administrada pela Fundação Estatal Saúde da Família (FESF SUS).

Este é um passo para recuperar a dignidade de pessoas que foram tão apagadas, segregadas, por uma sociedade que nos vê como coisas malignas. Nós só estamos aqui querendo existir”, comemorou Leslie Sá, a primeira paciente a ser atendida no ambulatório. Ela passou pela triagem e, logo em seguida, a equipe do hospital fez a coleta de sangue para exames hormonais, de sorologias e exames de rotina. “Somos cidadãos, cidadãs como outras pessoas e queremos apenas os nossos direitos”, afirmou, acrescentando que o que ela quer é viver com o mínimo de dignidade. “E esse laboratório é um passo para que a gente consiga se colocar de uma maneira mais digna, com a representatividade maior, com acesso à saúde de qualidade que é um direito de todos e dever do estado. Essa iniciativa acaba cumprindo com esse objetivo”, disse Leslie.

Perto de casa

Deste mesmo sentimento compactua o jornalista Gael Figueiredo. Ele iniciou a afirmação de gênero há seis anos e para ter acesso ao SUS sempre teve que se deslocar até Salvador, especialmente para atendimentos de endocrinologia e ginecologia. “Saber que hoje, aqui em Ilhéus, que é a minha cidade, no bairro da Conquista, que é o bairro onde moro, saber que não preciso sair daqui pra lugar nenhum para ser atendido e ter acesso à saúde especializada, sem sofrer transfobia, por ser um ambulatório trans, isso é uma vitória”, comemora.

Pela primeira vez no sul da Bahia o atendimento à comunidade trans passa a ser gratuito. Leslie explica que até então os exames tinham que ser em clínicas particulares. “A quantidade de profissionais qualificados para trabalhar com esse assunto é muito reduzida. Demanda alta para poucos profissionais. O valor fica altíssimo. Exames caros, por que trabalham com dosagens hormonais. Um exame mais demorado e trabalhoso. Saía caro”, revela, trazendo também uma grande preocupação. “Muitas pessoas buscavam fazer harmonização por conta própria, procurando fotos na internet, que, agora, com o ambulatório, poderemos encontrar melhor essa informação e um lugar para nos acolher”, comemora.

Preparação

Há mais de um ano o Hospital Materno-Infantil se prepara para ofertar este serviço ambulatorial. O primeiro, de acolhimento, com um abraço simbólico à causa. Depois, palestras durante as comemorações do Orgulho LGBTIAPN+. A direção do hospital também visitou a Maternidade Climério Oliveira, em Salvador, considerada referência nesse modelo de atendimento, onde são realizados partos de homens trans. E foi visitada pela assessora técnica da área de saúde LGBT, da Secretaria Estadual da Saúde, Fabiana Brandão, que veio conhecer as condições propostas pela direção da unidade, debater e construir juntas o formato de um novo e inédito serviço na região. Cursos, palestras e sensibilização dos colaboradores do HMIJS antecederam o momento desta terça-feira.

A unidade de Ilhéus ainda reivindica a habilitação do serviço. Além de Salvador, já há outros projetos em estudo para o interior. Com a implantação do ambulatório no HMIJS, será possível ampliar mais essa política pública de saúde na região. Enquanto a habilitação não sai, a intenção, de acordo com a diretoria, é construir uma série histórica no atendimento, mostrando a demanda e a importância deste atendimento para o sul e extremo sul da Bahia.

“Foi assim que também construímos o projeto do primeiro hospital da Bahia especializado no atendimento aos Povos Originários, que é uma realidade conquistada”, lembra a diretora-geral do HMIJS, Domilene Borges. O HMIJS é o primeiro hospital da Bahia com esse perfil de atendimento aos indígenas. O diretor-médico Samuel Branco destaca que o Sistema Único de Saúde (SUS) tem em uma das suas diretrizes a consolidação da Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. “E O SUS, em sua plenitude, em condições de igualdade para todo cidadão e cidadã brasileiros é uma luta permanente travada pela Sesab e pela FESF, que dão o aporte necessário para avançarmos”, afirma.