Entre Grades e Leitos: Dilemas da Classificação de Risco sem Acolhimento

Erasmo Ruiz | ter, 02/03/2010 - 11:44.
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Nos últimos anos temos visto a efervescência de práticas que se dizem de ACCR (Acolhimento com Classificação de Risco), protocolos estão sendo criados, práticas redimensionadas, fluxos ordenados, enfim, as coisas estão melhorando em muitos locais. E, junto a estes processos, vem as modificações de ambiência. Aspectos que antes eram considerados “privilégios” e “luxo” como salas climatizadas para pacientes do SUS ou salas de espera com TVs de plasma  vão gradualmente fazendo parte da paisagem.

Mas existem coisas que insistem em permanecer, herança de um passado recente que se presentifica como norma cultural e que nem toda a reforma e nem toda construção absolutamente nova parece poder dar conta. Já nos ensinava o velho Karl Marx que, em muitas circunstâncias, o peso das tradições, inclusive das gerações mortas, oprime o cérebro dos vivos. Volta e meia o tabu da virgindade ou as observações de cunho machista e sexista são “singelos” exemplo do cotidiano que mostram que os fantasmas da idade média ainda povoam nossas ações.


Recentemente presenciei a luta vanguardista de um grupo de trabalhadores de um grande hospital de Urgência/Emergência para implantar o ACCR. Estão tentando seguir a risca o que preconiza os manuais, estão tentando transformar o cotidiano e a subjetividade dos trabalhadores mas esbarram em duas coisas aparentemente simples: na lógica do funcionamento do Estado; na necessidade de se “proteger” dos pacientes.

Explico-me melhor. No bojo dos processos privatistas dos anos 90, estabeleceu-se  o consenso da necessidade de terceirizar força de trabalho de atividades consideradas menos relevantes às atividades fim. Assim, em poucos anos, os hospitais foram sendo ocupados por milhares de porteiros, maqueiros, trabalhadores de limpeza etc, oriundos de empresas de terceirização. De saída isso acabava provocando sérios problemas de gestão, pois, se de um lado  poder-se-ia constatar racionalidade de recursos (embora essa “racionalidade” pudesse ser interpretada como transferência de recursos públicos para setores privados), por outro lado essa massa de trabalhadores era gerida pelos interesses de suas próprias empresas e não necessariamente pelos interesses de quem  contratava essas empresas. No hospital em questão isso coloca um entrave ao acolhimento na medida em que a prestadora de serviços encaminha porteiros e maqueiros sem as qualificações necessárias para lidar com o público. Imaginem o que acontece quando pessoas acostumadas a fazer segurança de casa de shows se transformam em porteiros de hospital?  De que forma estão “acolhendo” as pessoas?


Erving Goffman  (sociólogo norteamericano) cunhou  o termo “Instituição Total”. Muito resumidamente, uma instituição total  pode ser caracterizada como espaço que visa controlar a vida dos indivíduos impondo regras e/ou comportamentos que só podem ser decodificados em seu próprio espaço. A Instituição Total substitui todas as formas externas de interação social pelas suas formas internas. Assim, p.ex., as regras que regulam os comportamentos de presidiários numa penitenciária são mais relevantes para a interação destes grupos na cadeia do que as regras que regulam os contatos das pessoas fora da prisão.

Com os hospitais acontece fato muito similar. Ele tem estruturas normativas, regras de conduta, horários, alimentação e formas de se vestir enfim, ações que impactam na vida de todas as pessoas que dele fazem parte, em particular e de forma mais intensa, da vida dos usuários.  E algumas senhas na ambiência do hospital expressam com clareza muitas vezes rude o que aquele espaço pensa das pessoas que vem até ele para serem atendidas. Falo das grades que “protegem” os trabalhadores em postos de atendimento, que isolam espaços delimitando objetivamente até onde usuários podem ir ou mesmo trabalhadores considerados “inferiores” na estrutura hierárquica.

Assim, como implantar o acolhimento numa relação ORGÂNICA com a classificação de risco em espaços institucionais onde a subjetividade implora pela presença de grades que “protegem” as pessoas destas bestas feras prontas para agredir e depois chamar o populismo televisivo que irá mostrar o rosto do trabalhador de saúde, ele também vítima da falta de resolutividade da rede?
Do meu singelo ponto de vista, não é possível a implantação de ACCR sem o “A”. O que estamos vendo em muitos lugares são formas de regulação de fluxos , o que por si é algo importante na medida em que, enquanto atuação técnica, pode ser elemento decisivo para salvar vidas mas, ainda assim, não estará atuando na implantação de um princípio fundamental às práticas humanizadas  de saúde: o acolhimento!

Trata-se, portanto, de se colocar em análise junto as rodas de trabalhadores que se envolvem com a implantação do ACCR a discussão da subjetividade institucional que ainda necessita de muros e grades, algumas destas inclusive  adquirindo uma concretude literal.  Como acolher aquilo que me ameaça? Tenho, portanto, de colocar em analise os sentidos que fazem com que muitos trabalhadores vejam nos usuários uma ameaça a sua integridade física e não potentes aliados à construção de um SUS humano e solidário!

 

Estado/cidade: Fortaleza   

Comentários

Responder

Car@s!

 

Estava com essa problemática meio que atravessada na garganta. Nesse momento estou com muitas demandas  na minha Universidade mais processos da PNH e sem tempo para responder aos comentários. Em breve estarei respondendo a tod@s para amplificar essa conversa. Abraços do ERASMO

Fantástico

Erasmo, maravilhos texto. Trabalho em um Hospital que implatou a classificação de risco e como tem sido díficil para as colegas... Acho que a classificação de risco sem acolhimento, passa a ser apenas uma triagem técnica e entendo que o acolhimento  tem que ser extensivo a todas as dependências do Hospital e aì muitas vezes ao invés de acolhimento nos deparamos com a cultura do NÂO. Como reaprender a dizer mais sim do que não?

Admiro muito seu textos, muitas vezes através deles volto a sonhar e como não eixiste vida sem sonhos, nem sonhos em vida, eu revivo. Muito obrigada!

E as grades incorporais?

Oi querido Erasmo, Ao ler as tuas palavras, fiquei pensando que estou num hospital sem as tais grades concretas, mas com muitas grades mentais/virtuais. São menos visíveis...mas tão poderosas quanto. Sempre penso no panoptico descrito por Foucault como uma arquitetura do controle, classificação e vigilância. Mas um panóptico incorporal é bem mais assustador. grande beijo Iza

Desafio nosso de cada dia...

Caros colegas

 

Concordo com vocês sobre o quanto temos que lutar para transformar o nosso pensamento e através dele as ações que refletem diretamente no tratamento dado ao usuário. Em Sorocaba_SP, município em que sou responsável pela implantação e manutenção do ACCR, temos grandes dificuldades neste sentido...não utilizamos as grades ou vidros para "proteger" o funcionário, mas o fato é que elas existem de qualquer modo, quando a classificação de risco se torna algo automático e desvinculado de um processo de horizontalização do cuidado, seja este justificado pela demanda expressiva e não limitada numericamente, pelas horas restritas de retaguarda de profissionais médicos, pela pressão do paciente quanto a ser atendido em pouco tempo, mercantilização da saúde, transformando o cuidado em bem de consumo, enfim...as barreiras existem,  e quando não são visíveis como as grades, precisamos estar atentos aos ruídos presentes entre funcionários e população!

E o fato é que recebemos as pessoas, não se dispensa pura e simplesmente como outrora, caminhos são dados a partir do conhecimento de cada caso invertendo a lógica pré-existente, analisa-se melhor a demanda da população porpondo-se novas linhas de cuidado,  e embora tudo isto já seja um crescimento muito grande em relação a qualidade do acesso oferecido, ainda precisamos discutir e MUITO,  para vencermos o desafio nosso de cada dia, no sentido da consolidação verdadeira do ACCR como dispositivo de Humanização, para que neste realmente exista solidariedade para com o outro,  consciência de humanidade naquele que busca o serviço de saúde e para tanto só através de um processo reflexivo permanente, do nível local ao nacional, tendo como foco não apenas resultados mensuráveis, mas qualidade para quem recebe e presta a assistência.

 

Acolhimento e violências no trabalho em saúde

 

Compas, esta discussão nos remete à questão da violência contemporânea que atravessa o cotidiano do trabalho em saúde, em especial, do SUS. Tendo realizado rodas e oficinas com trabalhadores em Unidades Básicas/SUS-BH (2005-2008), inseridas em áreas consideradas de "alto risco social", buscando-se apoiar e valorizar profissionais em suas relações com usuários e gerências, sempre nos perguntávamos: Como pode a PNH, através de suas diretrizes e dispositivos, contribuir para a promoção de Cultura de Paz e Não-violências nos locais de trabalho do SUS?

Erasmo e outros colegas da política e também profissionais da "Promoção da Saúde e Prevenção de acidentes e violências", nos apontam a diretriz do Acolhimento e dispositivo associado ( Classificação de Risco) como uma possibilidade de articularmos diferentes políticas do SUS, buscando-se construir relações solidárias e cooperativas entre os difderentes sujeitos envolvidos/implicados com a produção de saúde. Neste sentido a PNH caminharia ampliando e fortalecendo espaços de construção de rodas e redes, favorecendo a inclusão e disparando processos de diálogo e negociação entre os diferentes agentes/participantes do SUS.  Importante esta discussão! Vamos conversando. Abraços,

Ana Rita Trajano

Impactante !

  Erasmo,

      Esta imagem de grades em um Hospital é realmente impactante !!!  Como pensar em Acolhimento ? Como FAZER Acolhimento ? Transpor as grades, enquanto elas não saem dalí, e compartilhar disso no diálogo.

      Por outro lado uma boa notícia: Nem sempre o fato de termos profissionais terceirizados no Hospital, como parte dos trabalhos de apoio,nestas variadas funções torna-se necessariamente um impedimento de integração da equipe. Entre os terceirizados, como entre os estatutários é possível encontrar a mesma pluralidade humana, implicados e não implicados. Acho que aí dependerá muito mais, da amplitude da proposta de gestão.

   No caso, em relação ao ACCR , se o Hospital não isola este dispositivo como única ação que se propõe  " inovadora" , e inclui na proposta de  mudança, também a gestão colegiada, a própria rotina dos encontros em rodas, acaba por naturalmente mesclar terceirizados e estatutários. Isso tem acontecido no HGT em Natal.

     No H. Giselda Trigueiro, Vigilantes que guardam a recepção, funcionários da Lavanderia  ( Onde há tres terceirizados com 21 do SUS)  PARTICIPAM quinzenalmente das Rodas do Coletivo ampliado da PNH/HGT, se envolvem mesmo. Pergunte  à Sheylla sobre o Naldo, por exemplo !  ele é vigilante terceirizado e não perde uma reunião ... é claro , é um processo lento, na Lavanderia há pouco começamos as rodas para conversar sobre Co-gestão, e estas estão sendo setoriais "UP -Lavanderia e Hotelaria"; lá os terceirizados também começam a participar, criam modos de fazer, junto ao colega estatutário.

    Ou seja, Mudar é possível . E vamos seguindo:

 " Caminhando e cantando e seguindo a canção ... Vem vamos embora, que esperar não é saber.... quem sabe faz a hora, ( e aprende com o caminho) não espera acontecer ...".

    Beijos, no coração !

    Shirley Monteiro.

  

 

 

 

TERCEIRIZADO Incluído

   Erasmo,

    Na continuidade do comentário abaixo , veja no link post http://www.redehumanizasus.net/node/9362 ,  A TERCEIRA FOTO: uma foto do terceirizado na roda da UP Lavanderia/Hotelaria, em meio aos trabalhadores do SUS, ( diferenciado pelo uniforme bege/marrom)de forma que no seu fazer cotidiano, na micropolítica ele é tbm um trabalhador do SUS; esse é o sentimento.

     Até acontece deles ficarem muito chateados, pelos entraves administrativos decorrentes, por exemplo, não poder trocar de lugar na escala com um colega do setor que não é da empresa, mas da Secretaria de saúde. Porém, pela transversalidade, no que dá para se fazer e compor, ele está dentro e implicado.

     Estou adorando ter saído do adminsitrativo, ( gestão central) e ter voltado para dentro do Hospital, esse,  novo para mim.

      Bjos,

      Shirley

   

 

Acolhimento

Como acolher aquilo que me ameaça? Acredito que aqui está a reflexão caro Erasmo, quando chego ao pronto socorro como chamamos aqui, me questiono e muito, dia destes ao ser chamada que tinha um usuário do capsad no PS fui acolher e o mesmo veio conduzido pela PM e a familia, não sei se a familia bateu nele ou a Pm mas o mesmo estava com lesões e relatou ao plantonista DR. ESTOU GUSPINDO SANGUE E O MESMO DISSE  GOSPE AI NO CHÃO , (só saliva) o médico pisou em cima a enfermeira resmungando pegou uma compressa sem luva passou no chão, tudo isto no corredor na presença de outros usuários e familiares.

 Bem este é o nosso hospital que minha colega está se esforçando trabalhando ( praticamente sozinha a classificação de risco) para concluir o médico nada fez disse que ali não era o lugar dele, encaminhei ao caps  acolhemos, ele e a familia e o mesmo foi encaminhado a uma comunidade terapeutica já fazem 60 dias. As grades ainda existem infelizmente entre nós colegas de profissão, não sei se é mal dos profissionais da SM mas tudo relaciono a reforma psiq.

Na mosca!

Erasmo, já havia sugerido a leitura daquele outro post seu (acolhimento e cores) para uma aluna que oriento. Mas esse vai mais ainda no cerne da questão. Creio que, numa perspectiva foucaultiana de análise, o problema começa também com a gênese moderna desse espaço. Afinal, que tipo de relação (e penso muito aqui naquele texto do Ricardo) as práticas históricas de sua organização têm buscado efetivamente regular? Dá pano pra manga...

Abraços!

Pablo D. Fortes

Como estamos vivendo?

 

Erasmo querido,

Maravilhoso texto! Como sempre.

O cuidado às pessoas e ao planeta parece agora ser coisa de quem estuda para. É impressão minha ou não crescemos mais na direção do cuidado a si próprio, ao outro e ao ambiente? Que pena! Do contrário, não precisaríamos agora nos preparar para " aprender e ensinar como cuidar ", seria nato! Seria lógico! Seria...natural. De fato estamos diante de "prestadores de serviço" , ou seja, pessoas, seres humanos que estão sendo programados para desempenhar uma tarefa e parece o cuidado ao outro - usuário, colega .. seja quem for, ser uma tarefa a mais e da qual precisamos ter certificado. É necessário sim refletir sobre a gestão, vínculo e qualificação dos trabalhadores, mas sobretudo, deveremos refletir seriamente sobre como estamos vivendo em nosso planeta. Ao que me consta, estamos por quase destruí-lo.

Abraços,

Luciana