Inclusão e diversidade na IV Mostra de Saúde reflete a própria dinâmica do SUS

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Por Sonielson Luciano de Sousa
É publicitário (CEULP/ULBRA), pós-graduado em Educação, Comunicação e Novas Tecnologias (Unitins), editor do jornal e site O GIRASSOL, graduando em Filosofia (Universidade Católica de Brasília), e colaborador do (En)Cena
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"Perceber que há um sistema de saúde que acontece,
que está em movimento e dando certo,
foi uma experiência profundamente marcante para mim"
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Sonielson Luciano de Sousa

 

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Abertura do evento IV Mostra Nacional de Experiências em Atenção Básica/Saúde da Família
Foto: Paulo André

 

Como comunicador social e interessado pelo tema da saúde pública brasileira (modelo que julgo ideal, no entanto ainda não implementado em sua totalidade, portanto com muitas imperfeições), confesso que aprendi muito durante minha participação na IV Mostra Nacional de Experiências em Atenção Básica/Saúde da Família. Isso porque o evento, em si, é uma espécie de “colcha de retalhos” onde a colaboração e a troca de experiências dão a tônica, e é impossível deixar de refletir sobre o papel que cada brasileiro tem para construir um modelo de saúde pública, de fato, eficiente.

A Mostra é um exemplo de que há inúmeras práticas dentro do Sistema Único de Saúde e das secretarias de Saúde, em todos os Estados brasileiros, que estão fazendo a diferença e transformando a vida não apenas dos usuários, mas também dos profissionais que estão no “front” para levar a saúde pública. Esse é o caso de um grupo de agentes de saúde do interior de Santa Catarina, que encontrei no traslado entre o hotel e a Mostra. “Moço, eu amo o meu trabalho e gosto de interagir com as pessoas”, contou-me uma delas, em referência ao perfil de alguns profissionais mais jovens, que, para ela, não pensam no papel social de sua atuação, mas apenas na sua carreira individual.

O “recorte” acima é só um dos vários (na verdade, tem milhares, mas seria impossível conhecer todos) que pude perceber durante o encontro. Fiquei profundamente tocado ao me deparar com pessoas envolvidas “de corpo e alma” com a saúde do próximo, pessoas que obviamente e merecidamente recebem pelo que fazem, mas que de forma clara não colocam as questões pecuniárias em primeiro plano. Elas brilham os olhos sempre que tem que falar de suas práticas, das pessoas que influenciam positivamente. Uma delas, inclusive, uma professora da rede estadual do Rio Grande do Sul, chorou ao assistir a apresentação de um slide com as suas ações no campo da saúde na escola. “Quando se faz o que ama, é impossível não se emocionar com o resultado de nosso trabalho”, me contou. Respirei fundo, mas também foi difícil não “encher os olhos d’água”.

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Hall da entrada IV Mostra Nacional de Experiências em Atenção Básica/Saúde da Família

Foto: Paulo André

Como usuário do SUS, eu estaria sendo injusto se negligenciasse todos os percalços que os profissionais enfrentam para levar um atendimento e serviço de qualidade. E conheço muitas pessoas em Palmas profundamente apaixonadas pelo que fazem. De forma geral, sempre nos perguntamos se o acolhimento que às vezes nos dispensam nas unidades “próximas” de nossas casas (por já estarmos familiarizados culturalmente) também ocorre em outras cidades e regiões. As práticas exitosas e desafiantes expostas em Brasília foi uma oportunidade de me mostrar que existe uma proposta de universalização da saúde que é viva, mutável, que pulsa em igualdade com a própria existência e anseios de quem “produz” os serviços de saúde. Que está em constante crescimento e aperfeiçoamento. E falar mal da saúde pública e/ou do SUS, de forma generalista, é olhar apenas um lado desabonador do sistema (filas, demoras, alguns atendimentos inadequados etc), sem levar em conta os inúmeros profissionais que fazem a diferença, que adotam posturas “dialogistas”, originais e que, nas suas comunidades, contribuem para oferecer um serviço de saúde com o mínimo de qualidade.

Estar próximo de uma mulher que lida com plantas medicinais, e que participa em Marabá-PA de um grupo que promove cultura para alertar para a saúde é também uma grande oportunidade de perceber que, pelo menos em comunidades do Norte do país, ainda se alia a tradição cultural com o saber científico. E o que dizer do grupo de palhaços de João Pessoa-PB? Eles lutam contra o que chamam de “espoliação” do atendimento em saúde, pelo setor privado, e veem o trabalho nesta área mais como uma missão, e menos como uma mera profissão que garanta seus salários no início de cada mês. São pessoas e experiências que, certamente, me influenciaram de forma profunda. Aliás, este é um dos objetivos da Mostra, explicitar “um SUS profundo”, que não é retratado na mídia tradicional e que, assim, é conhecido apenas pelo seu aspecto negativo.

Nestes últimos seis anos, em contato com o Budismo e o Taoismo, aprendi que uma mesma circunstância pode apresentar muitas facetas, e que se deve ter muito cuidado com os (pré)julgamentos. Longe de querer negar os vários problemas do SUS, nesta Mostra pude perceber parte destas máximas orientais. Se se investigar com esmero, sem inclinações ideológicas (o que confesso que é difícil), há sim como vê os “dois lados da moeda”. Estava acostumado a ver apenas um dos lados. Esta IV Mostra me possibilitou outros olhares sobre a saúde. O mais importante, creio, é perceber que o processo (de oferecer saúde pública, universal e de qualidade) é uma meta a ser buscada constantemente, e que há muita gente boa envolvida nisso. Que possamos, então, atingir logo este objetivo.

Texto originalmente publicado no portal (En)Cena – A Saúde Mental em Movimento